Killing Surfers – Nothing Is Heading (Album)

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foto por Taynah

Em 2018 o selo Crooked Tree Records comemora dois anos de existência com o lançamento do álbum da Killing Surfers. A banda que lança seu primeiro álbum completo, Nothing Is Heading, passou por mudanças desde o lançamento do seu EP em 2016; trocou de nome, de formação.

Aatualmente é formada pelo frontman Mário Alencar (guitarra e voz), Wilson Victor (guitarra), Gabriel Araújo (Baixo) e Normando Galdino (Bateria).

O som da banda emerge da paixão dos integrantes pelo shoegaze e o rock alternativo dos anos 90, bandas como My Bloody Valentine, The Jesus And Mary Chain, Sonic Youth, mas se destaca por não copiar ou requentar uma fórmula estabelecida. O som de Nothing Is Heading é vibrante e variado, a cozinha de Gabriel e Normando faz mais do que manter o ritmo, imprime mudanças de direção na melodia, deixando Mário e Wilson povoarem as canções com belas e cortantes guitarras cheias de fuzz, reverb e outros efeitos.

A voz de Mário Alencar apesar de carregar o clima introspectivo dos ”shoegazers” também surge rasgada em algumas canções, o que tira a banda do lugar comum praticado por muitas bandas que seguem por essa trilha. Vamos ao faixa a faixa?

Rebirth abre o disco com guitarras fuzz climáticas e logo de cara um baixo pulsante faz o corpo mexer de leve, em uma dancinha desengonçada e feliz; logo depois acalma o mar de guitarras para a voz nos contar sobre desilusões, e amores, alternada entre o suave e o rasgado.

Shadows Go Away , a mais lenta, tem um clima mais tradicional com a voz soando mais preguiçosa e com um backing vocal bacana no fim da música. A letra é especial, foi escrita pelo ex baixista da banda Gellyvan Fernandes, ou seja, o Nonsense Lyrics; Fernandes foi quem gravou os baixos do EP You Never Cared de 2016.

Em Everything’s Going Down tem guitarras com vibrato que iniciam a música também mais lenta, com um groove mais tribal que as anteriores.

A coisa muda em Midnight Ghosts, o ritmo frenético quase pós hardcore e grunge vem com partes de ”drum’n bass” (da ótima bateria de Galdino) que se destacam na música.

Crawl segue numa levada pós punk também mais “uptempo”, em relação às três primeiras, com uma batida mais dançante que Midnight Ghosts.

Guitarras em reverso são a tônica da faixa título do álbum. Um interlúdio.

A faixa Special Mend abre com guitarras cheias de reverb mas logo deixa entrar o mar de distorções, que tem um riff que gruda na cabeça e conduz a melodia da música. O baixo de Gabriel pulsa novamente e se destaca na faixa. Essa faixa pode-se considerar um dos hits do registro.

Seguimos com a densa Discomfort, que surge de forma “shoegaze tradicional” e que depois toma um rumo quase pós rock em que Mário canta com uma voz desesperada e quase “grunge”.

Chegamos a mais um hit do disco; Rest Your Head. Guitarra que gruda nas meninges, bateria “primitiva” no estilo Jesus And Mary Chain em seu primeiro disco, Psychocandy e eis que surge uma bela voz feminina, cortesia de Ellen Farias fazendo participação que trás um ar de dream pop à canção – e ainda tem clima de bossa nova torta no meio. Sensacional! É pra deixar no repeat.

Deu para perceber que apesar da referência noise pop temos muita coisa debaixo dessa roupagem. Talvez possamos citar novas bandas como o A Place to Bury Strangers ou as brasileiras de hoje em dia como o Justine Never Knew The Rules, que produzem algo semelhante.

O álbum termina com a faixa The Bright Colors que remete um pouco aos trabalhos mais experimentais de Mário Alencar como o Sketchquiet, mas com muito Slowdive e Cocteau Twins na atmosfera da melodia. Belo disco!!!

Artistas como Jude, Humbra, Sebage, Pedro Salvador, Pacamã, The Sorry Shop deram um saudável empurrão na qualidade do som produzido pela Crooked. Esse disco faz parte dessa “nova fase”, bem trabalhado e refinado mas mantém o clima low fi tão querido pelo selo. O álbum será distribuído também pelo selo gaúcho Lovely Noise Records.

Nothing Is Heading abre os lançamentos de 2018 e vai gerar expectativas em relação aos trabalhos de novos artistas do selo e dos novos trabalhos de “veteranos” como Humbra, Jude, Sebage. Eu digo que estas expectativas serão todas superadas!

por Carlos Otávio Vianna


Ouçam agora na íntegra:

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Os melhores discos da Crooked de 2016 – 2017. Segundo os nossos colaborados (TOP 5)

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MÁRIO ALENCAR:

Tempos Mal Vividos – Humbra (2016)

Softspoken – The Sorry Shop (2017)

Beatnik – Sebage (2017)

Brazilian Max – Os Ex-Fumantes (2017)

Marina Goes To Moon – Juna (2017)


CARLOS OTÁVIO VIANNA:

Ainda Que de Ouro e Metais – Jude (2016)

Abstrações de Você – Lzu (2016)

Voyage – Eric Iozzi (2016)

Antes Aqui Era Tudo Mato – Pacamã (2017)

Marina Goes To Moon – Juna (2017)


CLAUDIONOR GOMES:

Ainda Que de Ouro e Metais – Jude (2016)

Every Union Should Be A Lovely Union – Bad Rec Project (2017)

Oscilação – Bergamota (2017)

Antes Aqui Era Tudo Mato – Pacamã (2017)

Brejo – Mopho (2017)


VAL WAXMAN (MARCOS):

Ainda Que de Ouro e Metais – Jude (2016)

You Never Cared – Killing Surfers (2016)

Softspoken – The Sorry Shop (2017)

Great Diary Things – Mario The Alencar (2017)

Down And Out – Victor Barros (2017)


ALEXANDER MOREIRA:

Tempos Mal Vividos – Humbra (2016)

Música Para Comerciais, Curta-Metragens e Outras Coisas – Depressa Moço! (2016)

Brejo – Mopho (2017)

Antes Aqui Era Tudo Mato – Pacamã (2017)

Pedro Salvador – Pedro Salvador (2017)


SEBAGE:

You Never Cared – Killing Surfers (2016)

Ainda Que de Ouro e Metais – Jude (2016)

Saindo de Cena – Depressa Moço! (2017)

Brejo – Mopho (2017)

Brazilian Max – Os Ex-Fumantes (2017)


PAULO CÉSAR:

Ainda Que de Ouro e Metais – Jude (2016)

Brejo – Mopho (2017)

Pedro Salvador – Pedro Salvador (2017)

Beatnik – Sebage (2017)

Oscilação – Bergamota (2017)


GELLYVAN FERNANDES:

Ainda Que de Ouro e Metais – Jude (2016)

Casca – Eric Iozzi (2016)

You Never Cared – Killing Surfers (2016)

Oscilação – Bergamota (2017)

Great Diary Things – Mario The Alencar (2017)


LEONARDO OLIVEIRA:

Ainda Que De Ouro E Metais – Jude (2016)

Marina Goes To Moon – Juna (2017)

Down and Out – Victor Barros (2017)

Softposken – The Sorry Shop (2017)

Come To The Dust Nowhere – Sketchquiet (2017)


DESTAQUES:

Tempos Mal Vividos – Humbra (2016)

Ainda Que de Ouro e Metais – Jude (2016)

You Never Cared – Killing Surfers (2016)

Softspoken – The Sorry Shop (2017)

Beatnik – Sebage (2017)

Antes Aqui Era Tudo Mato – Pacamã (2017)

Brazilian Max – Os Ex-Fumantes (2017)

Marina Goes To Moon – Juna (2017)

Oscilação – Bergamota (2017)

Brejo – Mopho (2017)

Great Diary Things – Mario The Alencar (2017)

Pedro Salvador – Pedro Salvador (2017)

Down and Out – Victor Barros (2017)

Sketchquiet – Come To The Dust Nowhere (Album)

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foto por Normando Galdino

Uma das maiores virtudes do amigo Mário Alencar, é a forma como ele usa a falta de recursos a seu favor, as sobras, ruídos e chiados da gravação acabam se incorporando às músicas e se tornam parte importante delas. E ele chega agora com o segundo disco do Sketchquiet pela Crooked Tree Records.

Mário é o Sketchquiet, que trabalha essa limitação com maestria e o resulto é um som sujo, oras delicado oras visceral e também intimista. Coisas que gostaríamos de ver em bandas maiores mas que se perdem no excesso de produção.

O homem não se preocupa com plug-ins e filtros, o que você ouve é o que ele está fazendo e ás vezes traduzem seus conflitos internos. Produzindo música em escala industrial, seguramente é o artista mais produtivo do underground brasileiro atual.

Come To The Dust Nowhere começa bem com a faixa Afterglow, é melancólica no tom certo e apresenta a maturidade sonora de uma banda que não tem pressa em agradar ninguém.

Achei que a faixa Floating On A Breeze casou bem com a atmosfera proposta pela arte de Elizeu Salazar (o artista Lzu aqui da Crooked) para a capa do disco. Sete minutos de pura viagem e introspecção! É para os amantes do selo inglês de Sheffield, Warp Records, a música lembra projetos como o Boards Of Canada ou o Aphex Twin.

Ouvi  The Earth Never Bothered To Put Words três vezes seguidas, e é hit desses que se toca no show e causa uma revolução de sensações. Alencar faz uso de suas influências sonoras e toca uma guitarra mais inspirada!

Gas Crater! Gosto dessa, é marca registrada da banda um tipo ”Sketchquiet” mesmo. Tenho impressão que estou ouvindo o one-man band murmurar a melodia pelo canto da sala instrumental que não teria melhor lugar para estar.

Sun Of The Nomads vem  quase uma balada com uma interessante levada de bateria, o sample no inicio é um complemento curioso, denunciando a participação do músico Carlos Otávio Vianna, Depressa Moço!

Os sketches sempre se dão bem quando exploram timbres mais graves, é o caso da faixa Creatures From Outer Space, aqui, a guitarra base ganhou uma irresistível sobra fragmentada.

White Ceremony ganhou vocal num disco predominantemente instrumental, outra característica forte da banda de um homem só. Mário canta num lamento esperançoso. Com ar nostálgico e que aspira bem o artista britânico Durutti Column, White Ceremony poderia ser a faixa principal do trabalho.

Desert Pyramids tem andamento lento mas é a música mais cadenciada do álbum. Envereda por outros caminhos e torna o disco mais rico. Funciona bem sozinha mas é praticamente uma armadilha para as faixas que vem a seguir.

Let the Sky Fall é puramente experimental, uma anti música com deliciosos ruídos ao final. Será que a faixa acabou ou o músico Mario Alencar simplesmente se perdeu em seus devaneios?!

Fechamos o trabalho com a faixa Ruínas – É Imersão numa track obscura, senti eco das boas bandas do pós punk com distorções rasgadas e pesadas.

Come To The Dust Nowhere esteve engavetado há um ano para ser lançado especialmente por aqui, que também está saindo junto pelo selo gaúcho Lovely Noise Records, que em 2018 promete versão física do trabalho. Se existe um nível abaixo do underground, o Sketchquiet habita ele!

E este foi o nosso último lançamento do ano. Até 2018!

por Edson Codenis


Ouçam agora na íntegra:

Os Ex-Fumantes – Brazilian Max (EP)

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”Nossa que barulho bonito!” Essa é a frase que se incia o EP Brazilian Max da banda Os Ex-Fumantes, resume de forma bem humorada o som que você irá curtir agora, sim! Curtir!!!

A banda é formada  pelos paulistanos Lucas Mendes Gabriel (Guitarra e vocais) Guilherme Doratioto (Guitarra), Vinicius Almeida (Baixo), Eliel Simões (Bateria) e ainda contam com um trompetista, Wesley Bruce. Os Ex-Fumantes nos presenteia com um som carregado de guitarras que trabalham em sintonia com arranjos de voz bem bacanas.

O EP tem duas canções em inglês e duas em português, e uma capa muito legal que emula um anúncio de cigarro, ideia do próprio vocalista. Alguma destas referências está entre o quarteto, The Strokes, The Libertines, Mac Demarco. A faixa Babe, I Need You começa com vocal de apoio chamando atenção e as guitarras conduzem pulsantes a canção para o refrão, que explode com outras camadas de guitarras.

A segunda canção, Quiçá, tem belos ambientes de reverbs abrindo e um contrabaixo pulsante, pode ser considerada o hit da casa. San José tem um groove mais pesado que explode no “refrão” cantarolado com pratos da bateria agressivos em meio as guitarras, excelente!

A faixa que encerra o disco é Rich Kids, tem uma pegada tribal com a batida marcando forte o ritmo com os tons e o surdo dando um clima mais “experimental”, com ruídos que inundam a música enquanto a banda manda todos os “garotos almofadinhas se cuidarem” (hahaha).

O EP Brazilian Max é curtinho, bem produzido e marcante, dará altos repeats nos lugares. A produção foi feita pelo Lucas Mendes Gabriel no Estúdio Rosa. Well, o que essa galera quer afinal? Que você apenas ouça o som e saia de casa para se divertir em algum bar próximo. Aguardaremos ansiosos por um álbum completo.

por Carlos Otávio Vianna


Ouçam agora na íntegra:

Bergamota – Oscilação (Album)

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A banda Begamota vem de Miguel Pereira, pequena cidade serrana do estado do Rio de Janeiro, e é composta por Kasu Machado (vocais e guitarra), Lucas Fernandes (guitarra e backing vocal), Gabriel Medeiros (bateria e backing vocal)  e Amon Deister (contrabaixo).

Os garotos constroem um som moderno com peso, variações rítmicas e muitos grooves. Imagine o Arctic Monkeys (na época do ”Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” em 2006), e o novo stoner do Queens Of The Stone Age… Terás uma percepção do que é o som da Bergamota. Mas não pense que a garotada aqui se resume a essas bandas, tem muito mais no caldeirão.

Eles tem admiração por bandas como The Black Keys, The Mars Volta, Echo And The Bunnymen, King Crimson, sim! Não há limitações. As letras de Kasu Machado falam de experiências cotidianas e relacionamentos, tudo temperado com um toque de humor que não é escrachado, mas sutil. A primeira faixa, Oscilação, que leva o título do disco, começa com um clima viajante com guitarras cheias de eco e descamba para uma vibe pulsante e um peso não sugerido pelo início – cheia de surpresas! Mastaba, a segunda faixa, toma de cara o que já falamos, QOSA! Pesada na medida. A terceira, Nuvens Negras é mais indie, mais rápida e “dançante” com uma letra esperta que brinca com a mania de quem quer parecer descolado e desdenha do que é feito em português – “Um olhar de desdém quando meu som tocou / Ela disse, não vou escutar vocês, porque vocês não cantam em inglês!”.

A faixa Queda Curta começa como musica de coquetel e chuta o balde com guitarras que fazem um estilo bacana e depois chamam para dançar “flamenco” (Brincadeira!!!). Poderíamos considerar essa, a referência ao Mars Volta?!? O Final é inesperado. Lástima começa com uma guitarra slide e clima “latino”, seria a balada do disco – se é que importa ter uma música mais calma, mas a letra não é doce. A sexta faixa já começa com o pé embaixo, em Ïvo Robotinik, as cordas conduzem a canção com tons graves. Destaque para a batera frenética, cheia de varições. Rogi, a sétima faixa, tem guitarras que criam um som envolvente que as vezes explode. A derradeira e última 40 Terços, talvez a mais sombria, tem com uma pitada de pós rock.

O álbum foi inteiramente produzido por Garage Inc. e Carol Lippi, e não podemos esquecer da arte da capa por Caio Lopes, que nos fazem remeter aos desenhos do Studio Ghibli. Uma estréia bacana, que foi feita com cuidado pela banda e que merece ser ouvida bem alto!

por Carlos Otávio Vianna


Ouçam agora na íntegra:

Pacamã – Antes Aqui Era Tudo Mato (Album)

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Num mundo onde as pessoas gostam de referendar tudo, é bom descobrir uma novidade que lembra alguma coisa mas que você não consegue definir. Sim, é muito bom descobrir algo original que tem seu jeito de ser – A banda alagoana Pacamã consegue esse feito, a começar pelo título de seu primeiro disco, Antes Aqui Era Tudo Mato.

Não é um disco bicho grilo mas possui um clima sereno, que lembra alguém que contempla uma bela paisagem longe das cidades. Com belas passagens acústicas, alguns efeitos sonoros que percorrem nossos ouvidos de um lado para o outro, guitarras esparsas e precisas que aparecem no momento certo, assim como os arranjos de cordas.

A faixa de abertura Engenho surge com um violão, sob um dueto de voz masculina e feminina que desaba em cordas e as já citadas intervenções de guitarras, a letra tem um jeito MPB”, uma forma mais lírica de falar de amores, natureza e sentimentos. Catedral, é aqui, o destaque do disco, é moderna como bandas gringas da atualidade, War On Drugs, Fossil Collective, Fleet Foxes e tanto faz, seu refrão é acentuado e gruda na cabeça. A percussiva Furdunço, tem guitarras dissonantes e distorcidas, com órgão ao fundo que remete a alguma produção da época do manguebeat, mas não necessariamente… Eddie?! Pontes e Arrois é um interlúdio soando como se estivéssemos passando por um campo lentamente a cavalo. A faixa que leva ao título do álbum lembra a onda pós rock, com seu contrabaixo forte e guitarras viajantes. Itapuã (Mudo) parece um alguém descontraído e feliz brincando com o seu ukulele na beira do rio. Fugitivo nos fazem pensar em uma noite estrelada onde dedilhamos nossa viola. E para finalizar, a derradeira Iara/Rito prova que uma música com arranjo de cordas pode ser pesada e delicada ao mesmo tempo – a letra fala sobre Iara, a mãe d’água.

O clima geral do disco me lembra o trabalho de Lula Cortes e Zé Ramalho, Paêbirú, com apresentação de um mundo fora de nossa realidade das cidades, algo que transcende o materialismo. O álbum mostra um som com pitadas de muitas coisas diferentes, mas que soa próprio nas mãos da banda, que é formada por Mateus Borges nos vocais, Igor Cavalcante na guitarra e violão, Mateus Magalhães com a percussão e vocal, Thiago Mata na bateria, violão, guitarra, contrabaixo, ukulele e vocal e Thomas Schaeffer também com um contrabaixo e guitarra, além da banda, houve participações de Ivana Fontes nos backing vocals, Tércio Smith nos violinos e violoncelos e Ceceu, teclados na faixa Engenho – a arte minimalista e que ao mesmo tempo nos remete a desenhos primitivos é de Thiago Mata.

Uma música moderna, delicada e vibrante nos momentos certos – Pacamã é um peixe da bacia do São Francisco mas que se adapta a vida em aquários e é exportado para todo mundo. Que a música do Pacamã alcance todos os aquários com fone de ouvido e alto-falantes do mundo, com as bençãos de Iara.

por Carlos Otávio Vianna e Mário Alencar


Ouçam agora na íntegra:

 

The Sorry Shop – Softspoken (Album)

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Acaba de desembarcar por aqui o Softspoken, lançamento deste ano da Sorry Shop pela Crooked Tree Records. O álbum tem a missão de suceder o elogiado Mnemonic Syncretism, de 2013. Sons oníricos e cativantes são a marca deste álbum, que mostra a habilidade da banda em produzir uma espécie de psicodelia shoegaze, se é que se pode dizer assim.

Em Softspoken, camadas de guitarras e vocais soterrados produzem uma poderosa combinação instrumental e poética, a qual permeia por todas as canções. As letras são bem interessantes e ao que tudo indica, no conjunto da obra, sugerem o fluxo de uma história, ou uma viagem onírica, como já dito antes – se não foi proposital, o resultado ficou genial. Até a 5ª faixa, Lost in Between, somos convidados a mergulhar num sonho distorcido, etéreo, que de certa forma traduz-se no refrão ”Again / Lost in between”. A 6º canção, que dá nome ao disco, mais curta e suave, sugere uma transição “Ao lado de lá” ao finalizar com a emblemática frase: “I have a little secret / no one knows”. A partir desse ponto as musicas falam de segredos e imagens oníricas ainda mais etéreos. Destaque para Queen of the North e Keepsake, que reforçam essa ideia de imersão e segredos. O disco termina com um convite e uma constatação “Come out to play / Nowhere safe”.

É notório as referências da banda que vai do dream pop do Slowdive ao shoegaze do My Bloody Valentine, mas The Sorry Shop tem um caminho único para as suas canções cheias de originalidade – formada por Marcos Alaniz  (Vocais, guitarra e percussão), Mônica Reguffe (Contrabaixo e vocais), Régis Garcia (Guitarra), Kelvin Tomaz (Guitarra e vocais) e Eduardo Custódio (Bateria). A arte da capa ficou por conta de Meire Todão.

Dentro da proposta da banda o álbum é muito  bem produzido e teve um bom trabalho de mixagem e masterização, graças a própria Sorry Shop, que deixou as músicas fáceis de se ouvir. Quando apreciado com cuidado, a experiência é ainda melhor. A cada compasso um detalhe, uma dica do que está por vir – pode também não ter sido intencional, mas, como nos sonhos, Softspoken acaba sem nos avisar. Na melhor parte, incrível!

O álbum também está saindo hoje pelo selo dos queridos Lovely Noise Records.

por Leonardo Oliveira


Ouçam agora na íntegra:

Pedro Salvador – Pedro Salvador (Album)

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Eu conheci Pedro no Festival Maionese (AL) de 2012. De lá pra cá sempre soube que ele era um cara muito ativo na produção autoral de sua cidade. Integrando o trio Necro, agora o papo é diferente. Lançando seu primeiro solo, ele aposta numa estética que conversa com a esfera de sua banda principal. Abriu um portal e foi diretamente há 1973, e lá ele gravou todos os instrumentos debutando seu disco homônimo aqui na Crooked.

Pedro Salvador é um dos maiores músicos que a sua cidade tem, é multi-instrumentista e já participou de vários projetos na cena alagoana. O álbum que o jovem veterano está apresentando aqui hoje, foi inteiramente gravado por ele, sem precisar de apoio nenhum (haha).  Com nome homônimo possuem 15 belas faixas, algumas sendo como fragmentos, é o caso das 4 partes de Suíte Microscópica.

O primeiro registro está um misto de sons setentistas, como todos sabem, já há um tempo em que Pedro é levado por essa safra – a faixa Canção do Fim, que tem 9:49 é uma inspiração ao soul funk, tipo Funkadelic mesmo, mas tu pega um flashback do Tim Maia e depois Mutantes com aqueles vocais estilo Rita Lee e Arnaldo Baptista (haha), e isso é bom pra caral****. Temos a Canção da Lua, em que Pedro se apresentou no 1o Festival de Música Popular em Cantos de Alagoas em 2016 (tem no Youtube) que podemos até considerar um hit para o álbum – e finalizando esse ”chama ouvinte porque o troço é bão” (hahahaha), tem até um ”rocksteadyzinho” instrumental, a Bananeiras em Flor.

A produção também é assinada pelo mesmo em parceria com o Estúdio Concha Acústica, e a arte (linda) do disco foi assinada pela artista Julia Danese. Se você é daqueles como eu, que ama Mahavinishu Orquestra, Os Mutantes, O Terço, entre outros nomes proghead nessa vida, não hesite e dê o play sem culpa.

Nem só de Necro vive Pedro!

por Vinícius Dias e Mário Alencar


Ouçam agora na íntegra:

Mopho – Brejo (Album)

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Os fãs do Mopho podem falar o que quiser, não importa o que eles digam: que a melhor canção é Tão Longe ou que é Não mande Flores – ou Caixa de Vidro ou Dani Rabiscou… Isso tudo é bobagem e eles sabem disso. O Mopho, cara, é como o vinho que se encorpa e apura o sabor com o decorrer do tempo. Eis a prova disso: as músicas do Brejo, quarto álbum da banda, lançado sete longos anos depois do Vol. 3, soam como clássicas, trazendo a força, a beleza, a naturalidade melódica das composições de João Paulo. A mais querida e mais influente banda de rock da cidade segue firme, com uma sonoridade que não deixa brechas para o vácuo, para a falsidade ou para o tatibitate das bandas adolescentes. O Mopho voa longe, viajando do romance das letras aos solos delirantes de guitarra e teclado.

O vocal de João Paulo amolda-se às canções com uma leveza e segurança – e uma emoção que se não se encaixa como uma luva, responde as expectativas do ouvinte como uma taça de champanhe brindando o ano novo. Ou como um copo de conhaque para abrir a goela e cantar com a verdade de quem não tem receio de expor o próprio desejo e o próprio coração. É uma festa de sentimentos e paixões: uma avalanche, uma correnteza sonora que te leva tão longe, tão perto, aqui, ali – em todo lugar. Se vinho ou cerveja, se conhaque ou uísque, tudo depende do momento: o que rolou acaba virando uma linda canção. A vida do cantor e a de todos nós, não é assim que são compostas as melhores músicas de todos os tempos? Especialmente quando o artista se dispõe a ser honesto no trabalho e a labutar com preciosismo, atendendo as exigências dele mesmo, de alguém que construiu um legado e continua a dar as cartas, reconhecendo-se como legenda criadora de um capítulo fundamental do rock alagoano e do rock brasileiro.

João Paulo canta, afinal, desvinculado do rótulo de banda psicodélica ou retrô. O psicodelismo continua, sem dúvida, com arranjos, por assim dizer, circulares: a roda gigante, o carrossel de fantasias que faz de novo acreditar no sonho, no amor e nas canções – no poder da música. A alma de João Paulo é muito velha, bicho. E ele tem consciência disso, pulando de uma canção à outra como um Merlin alquimista transformando pedra em ouro. As andanças musicais do cantor compositor guitarrista passeiam pela Jovem Guarda e Beatles, pelo Pink Floyd e pelos seminais Rita Lee & Tutti Frutti. E pela Casa das Máquinas, sempre. Não conhece essas bandas? Ah, claro que você conhece o caldeirão de rock que formou o Mopho e que continua alimentando a inspiração in natura de João Paulo.

Abra o seu coração, parece dizer o poeta, busque o seu amor – cante-o se você o perdeu. ”Estou no limiar do meu desterro/ Do meu desapego/ Ancorado em mares medonhos/ Lar de agonia velada/ De fúria alucinada/ Morada da minha loucura” – ele canta em Limiar, já no ranking de “a melhor de todos os tempos”.

Há outras na lista das dez melhores canções de rock. ”Um punhal de prata/ Cravado no peito/ Não derramem lágrimas/ Joguem meu corpo aos porcos/ Eu nunca existi, derrama-se o bardo em Fandango (Joguem meu Corpo aos Porcos). E em Não Sou de Ninguém, ele avisa: ”Ouça essa canção/ Que te fiz amor vazio/ Tu não sabes o quanto custa/ Gostar assim”.

E aí você chora e se lembra do passado, retorna às merdas que fez e às que fizeram com você. E vislumbra o ser poderoso que é, de repente na rua na chuva gritando a todo pulmões: ”Faça chorar/ Deixe sangrar/ Não tenha medo/ Não hesite/ Não há fim – Deus Está Nu, abrindo essa obra-prima chamado Brejo.

Há muito que o Mopho é um fenômeno. Desde que surgiu em 1996, a banda foi sedimentando um terreno de canções acachapantes, do tipo que grudam no ouvido e se tornam inesquecíveis, reverberando pela alma e pelo corpo: da mente alucinada ao coração apertado e vice versa. Músicas que se tornaram parte da nossa história pessoal.
Atualmente formado por João Paulo mais Dinho Zampier – tecladista e também produtor musical, junto com João, do disco Brejo –, e Leonardo Luiz, o sensível contrabaixista que, entre idas e vindas, acompanha essa trajetória desde 1998, para o álbum o grupo contou com a bateria de Rodrigo Peixe. A fotografia promocional da banda foi feita por Fernando Coelho.

E é isso aí. Deus salve o rock alagoano e uma vida longeva para esse monstro sagrado: o Mopho.

por Sebage Jorge


Ouçam agora na íntegra: