Nonsense Lyrics – No Place To Hide Yourself (Album)

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Esse menino chamado Gellyvan Fernandes vivia se escondendo na casa de Mário Alencar, sim, ele mesmo, o boss da Crooked (“Eu não sou boss de porra nenhuma”, Mário vai gritar). Enfiado no estúdio Lofizêra do chefinho, escapando para uma tocadinha no jardim do teatro Deodoro aqui na nossa capital, durante o “microfone livre” do movimento Antropofágico Miscigenado, geralmente por insistência nossa, o tímido Gelly foi montando esse criativo, acelerado, despojado e torrencial No Place to hide Yourself, o novo álbum do projeto Nonsense Lyrics, saindo do forno de Alagoas para o Mundo.

Letras sinceras comprometidas com o próprio coração vagabundo e com as amizades, e olhe lá que esse mago também não deixa passar em branco as mazelas deste país mutilado e desfalcado, cantando a beleza da floresta para dizer que “O desmatamento mata cada sentimento…” (em Pessoas são como Árvores).

Totalmente envolvido com as viagens musicais da Crooked a produzir eventos que agitam Maceió com uma série de live sessions nos pubs e teatros da cidade, Gellyvan Fernandes faz deste No Place To Hide Yourself – gravado entre 2016 e 2017, com produção de Mário Alencar e uma pequena ajuda do amigo carioca Carlos Otávio Vianna, do Depressa Moço!, que tocou bateria em Long Trip – uma bandeira de musicalidade pulsante e espontânea, fincada num solo fértil que já havia dado seus primeiros frutos com o EP (oito faixas) do ano passado, Golden Country Punk.

No novo álbum, Gelly toca as guitarras, violão e contrabaixo e, claro, todas as canções foram compostas por ele. Delirantes canções no melhor estilo Syd Barrett. Mário Alencar toca gaita, faz backing, guitarra e canta junto com Gelly em Não Sou o Mesmo e contrabaixo em Consolation, ficando responsável, também, pelas programações que dão textura e harmonização à viagem sonora do bardo moleque da Crooked (e quem não é moleque neste selo? Ah, eu mesmo e o Carlos Otávio Vianna, hehehehe). Essa turma jovem ideosa da Crooked que anda quebrando os paradigmas do rock brasileiro com propostas bem adiante desse contexto almofadinha mainstream de bandas posers e fakes proliferando de Norte a Sul do país com seus álbuns ajustados (quadrados) em fórmulas tão desgastadas quanto enjoadas, estampadas nos inúmeros álbuns de crias de Los Hermanos (bleh!) e congêneres. O desenho da capa é do nosso próprio trovador, para quem o conhece irá identificar de imediato este traço frenético que cativa.

Nonsense Lyrics bota mais lenha nessa fogueira criativa, com a beleza de sentimentos reais emergentes que fazem da Crooked Tree Records o selo do momento. E Gellyvan Fernandes o arauto do novo rock tupiniquim.

por Sebage Jorge


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Bergamota – Oscilação (Album)

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A banda Begamota vem de Miguel Pereira, pequena cidade serrana do estado do Rio de Janeiro, e é composta por Kasu Machado (vocais e guitarra), Lucas Fernandes (guitarra e backing vocal), Gabriel Medeiros (bateria e backing vocal)  e Amon Deister (contrabaixo).

Os garotos constroem um som moderno com peso, variações rítmicas e muitos grooves. Imagine o Arctic Monkeys (na época do ”Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” em 2006), e o novo stoner do Queens Of The Stone Age… Terás uma percepção do que é o som da Bergamota. Mas não pense que a garotada aqui se resume a essas bandas, tem muito mais no caldeirão.

Eles tem admiração por bandas como The Black Keys, The Mars Volta, Echo And The Bunnymen, King Crimson, sim! Não há limitações. As letras de Kasu Machado falam de experiências cotidianas e relacionamentos, tudo temperado com um toque de humor que não é escrachado, mas sutil. A primeira faixa, Oscilação, que leva o título do disco, começa com um clima viajante com guitarras cheias de eco e descamba para uma vibe pulsante e um peso não sugerido pelo início – cheia de surpresas! Mastaba, a segunda faixa, toma de cara o que já falamos, QOSA! Pesada na medida. A terceira, Nuvens Negras é mais indie, mais rápida e “dançante” com uma letra esperta que brinca com a mania de quem quer parecer descolado e desdenha do que é feito em português – “Um olhar de desdém quando meu som tocou / Ela disse, não vou escutar vocês, porque vocês não cantam em inglês!”.

A faixa Queda Curta começa como musica de coquetel e chuta o balde com guitarras que fazem um estilo bacana e depois chamam para dançar “flamenco” (Brincadeira!!!). Poderíamos considerar essa, a referência ao Mars Volta?!? O Final é inesperado. Lástima começa com uma guitarra slide e clima “latino”, seria a balada do disco – se é que importa ter uma música mais calma, mas a letra não é doce. A sexta faixa já começa com o pé embaixo, em Ïvo Robotinik, as cordas conduzem a canção com tons graves. Destaque para a batera frenética, cheia de varições. Rogi, a sétima faixa, tem guitarras que criam um som envolvente que as vezes explode. A derradeira e última 40 Terços, talvez a mais sombria, tem com uma pitada de pós rock.

O álbum foi inteiramente produzido por Garage Inc. e Carol Lippi, e não podemos esquecer da arte da capa por Caio Lopes, que nos fazem remeter aos desenhos do Studio Ghibli. Uma estréia bacana, que foi feita com cuidado pela banda e que merece ser ouvida bem alto!

por Carlos Otávio Vianna


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Pacamã – Antes Aqui Era Tudo Mato (Album)

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Num mundo onde as pessoas gostam de referendar tudo, é bom descobrir uma novidade que lembra alguma coisa mas que você não consegue definir. Sim, é muito bom descobrir algo original que tem seu jeito de ser – A banda alagoana Pacamã consegue esse feito, a começar pelo título de seu primeiro disco, Antes Aqui Era Tudo Mato.

Não é um disco bicho grilo mas possui um clima sereno, que lembra alguém que contempla uma bela paisagem longe das cidades. Com belas passagens acústicas, alguns efeitos sonoros que percorrem nossos ouvidos de um lado para o outro, guitarras esparsas e precisas que aparecem no momento certo, assim como os arranjos de cordas.

A faixa de abertura Engenho surge com um violão, sob um dueto de voz masculina e feminina que desaba em cordas e as já citadas intervenções de guitarras, a letra tem um jeito MPB”, uma forma mais lírica de falar de amores, natureza e sentimentos. Catedral, é aqui, o destaque do disco, é moderna como bandas gringas da atualidade, War On Drugs, Fossil Collective, Fleet Foxes e tanto faz, seu refrão é acentuado e gruda na cabeça. A percussiva Furdunço, tem guitarras dissonantes e distorcidas, com órgão ao fundo que remete a alguma produção da época do manguebeat, mas não necessariamente… Eddie?! Pontes e Arrois é um interlúdio soando como se estivéssemos passando por um campo lentamente a cavalo. A faixa que leva ao título do álbum lembra a onda pós rock, com seu contrabaixo forte e guitarras viajantes. Itapuã (Mudo) parece um alguém descontraído e feliz brincando com o seu ukulele na beira do rio. Fugitivo nos fazem pensar em uma noite estrelada onde dedilhamos nossa viola. E para finalizar, a derradeira Iara/Rito prova que uma música com arranjo de cordas pode ser pesada e delicada ao mesmo tempo – a letra fala sobre Iara, a mãe d’água.

O clima geral do disco me lembra o trabalho de Lula Cortes e Zé Ramalho, Paêbirú, com apresentação de um mundo fora de nossa realidade das cidades, algo que transcende o materialismo. O álbum mostra um som com pitadas de muitas coisas diferentes, mas que soa próprio nas mãos da banda, que é formada por Mateus Borges nos vocais, Igor Cavalcante na guitarra e violão, Mateus Magalhães com a percussão e vocal, Thiago Mata na bateria, violão, guitarra, contrabaixo, ukulele e vocal e Thomas Schaeffer também com um contrabaixo e guitarra, além da banda, houve participações de Ivana Fontes nos backing vocals, Tércio Smith nos violinos e violoncelos e Ceceu, teclados na faixa Engenho – a arte minimalista e que ao mesmo tempo nos remete a desenhos primitivos é de Thiago Mata.

Uma música moderna, delicada e vibrante nos momentos certos – Pacamã é um peixe da bacia do São Francisco mas que se adapta a vida em aquários e é exportado para todo mundo. Que a música do Pacamã alcance todos os aquários com fone de ouvido e alto-falantes do mundo, com as bençãos de Iara.

por Carlos Otávio Vianna e Mário Alencar


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The Sorry Shop – Softspoken (Album)

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Acaba de desembarcar por aqui o Softspoken, lançamento deste ano da Sorry Shop pela Crooked Tree Records. O álbum tem a missão de suceder o elogiado Mnemonic Syncretism, de 2013. Sons oníricos e cativantes são a marca deste álbum, que mostra a habilidade da banda em produzir uma espécie de psicodelia shoegaze, se é que se pode dizer assim.

Em Softspoken, camadas de guitarras e vocais soterrados produzem uma poderosa combinação instrumental e poética, a qual permeia por todas as canções. As letras são bem interessantes e ao que tudo indica, no conjunto da obra, sugerem o fluxo de uma história, ou uma viagem onírica, como já dito antes – se não foi proposital, o resultado ficou genial. Até a 5ª faixa, Lost in Between, somos convidados a mergulhar num sonho distorcido, etéreo, que de certa forma traduz-se no refrão ”Again / Lost in between”. A 6º canção, que dá nome ao disco, mais curta e suave, sugere uma transição “Ao lado de lá” ao finalizar com a emblemática frase: “I have a little secret / no one knows”. A partir desse ponto as musicas falam de segredos e imagens oníricas ainda mais etéreos. Destaque para Queen of the North e Keepsake, que reforçam essa ideia de imersão e segredos. O disco termina com um convite e uma constatação “Come out to play / Nowhere safe”.

É notório as referências da banda que vai do dream pop do Slowdive ao shoegaze do My Bloody Valentine, mas The Sorry Shop tem um caminho único para as suas canções cheias de originalidade – formada por Marcos Alaniz  (Vocais, guitarra e percussão), Mônica Reguffe (Contrabaixo e vocais), Régis Garcia (Guitarra), Kelvin Tomaz (Guitarra e vocais) e Eduardo Custódio (Bateria). A arte da capa ficou por conta de Meire Todão.

Dentro da proposta da banda o álbum é muito  bem produzido e teve um bom trabalho de mixagem e masterização, graças a própria Sorry Shop, que deixou as músicas fáceis de se ouvir. Quando apreciado com cuidado, a experiência é ainda melhor. A cada compasso um detalhe, uma dica do que está por vir – pode também não ter sido intencional, mas, como nos sonhos, Softspoken acaba sem nos avisar. Na melhor parte, incrível!

O álbum também está saindo hoje pelo selo dos queridos Lovely Noise Records.

por Leonardo Oliveira


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Bad Rec Project – Every Union Should Be A Lovely Union (Album)

 

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Vamos dar boas vindas ao artista Jorg/Caíque ou como vocês preferirem chamá-lo carinhosamente, lançando o seu mais novo disco com título envolventemente delicioso (haha), Every Union Should Be A Lovely Union.

Bad Rec Project não é um de seus primeiros projetos, conheço Caíque desde a época das bandas Nicotine, Dad Fucked And Mad Skunks, Jorg and The Cowboy Killers e sim, o rapaz não se cansa nunca! Ultimamente, Caíque toca guitarra na Ximbra e também é frontman da Baztian, duas bandas que são importantíssimas para o selo Crooked e cá está ele agora como o Bad Rec Project.

O álbum contém 9 faixas mas apenas com 20 minutos de duração mas olha, eu repeti o disco mais de trilhões de vezes, singelo e adorável (como adoro esse duo de palavras, hehe) – guitarras distorcidas como serra elétricas low-fis (???), vocais rasgados ou em corais, efeitos de reverse em algum instrumento, rola até espremedor de laranja, lixa de parede, desodorante, um cão fofo latindo e aquele som que parece um besouro voando, o xilofone, muito lo-fi, não?!

Percebe-se bem o que o Caíque curte ouvir durante o seu dia-a-dia para compor a Bad Rec Project, acho que vai de Guided By Voices à Pedro The Lion e com certeza muito mais. O ”projeto mal gravado” de Caíque nasceu em 2009 com o EP Leftovers e assim depois lançando dois álbuns, e Every Union Should Be A Lovely Union é o terceiro que a Crooked agarra. O belo desenho frenético da capa de Every Union foi feito pelo próprio, que me fez recordar os desenhos do gênio doentinho Daniel Johnston, em que a música também não se escapa dessa (hehe).

Bad Rec é música para jovens adultos que querem apenas se divertir com os amigos e realizar sonhos juntos mas espera aí, também podemos contemplar o fim de algum relacionamento ou passar a tarde olhando um álbum de família e observar/pensar o quanto você envelheceu mas não perdeu a alma de garotão.

O lo-fi é um termo bastante amado aqui na Crooked Tree, iremos lutar contra o preconceito que ronda isso até agora (hahaha) – a ”música de quarto” reina em nossos berços e não iremos te rejeitar, sem nojinho. Um beijo no pescoço e boa audição.

por Mário Alencar


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Depressa Moço! – Saindo de Cena (Album)

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Carlos Otávio Vianna, a mente carioca por trás do projeto Depressa Moço!, é um artista singular. Tem a capacidade sem precedentes de reunir tendencias das mais variadas e manter um trabalho coeso e criativo. A sua visão orgânica da manipulação de timbres eletrônicos eleva seus trabalhos a um outro nível de construção, onde o clima ”noir” reina.

O próprio Carlos diz ser influenciado por artistas experimentais, agregando beats eletrônicos clássicos como o drum’n bass. Nessa profusão de elementos, surgem vozes recitando versos e samples improváveis, dando um caráter surreal as composições.

Saindo de Cena já é o terceiro álbum do artista no selo, Depressa Moço! foram um dos primeiros a aparecer no catálogo da Crooked, quase um clássico e muito querido pela galera da ”árvore torta” (haha), também é um dos idealizadores do selo da sede do Rio de Janeiro.

O álbum cheio funciona muito bem como música incidental, faixas como O Método são uma crônica urbana narrada – é uma visão sombria característica da eletrônica, compartilhada por bandas pop como o Depeche Mode, New Order, Kraftwerk e até a leva do trip-hop dos anos 90. Também não podemos esquecer de que Carlos adora deixar seu set misturado, Depressa Moço! não vive só de sintetizadores mas também adora um folk, a bela Sonic Fruits é uma delas.

O álbum tem três participações, na faixa Entortando está o nosso artista de São Paulo Eric Iozzi, empunhando teclados e contrabaixo, a faixa Lembrança já é daqui de nossa terra, Sketchquietcomo sempre fazendo os riffs de guitarras e por fim, também de nosso território e assumindo as cinco cordas, Claúdio Teófilo, em Eita Loucura, Vou Na Fé! 

O Depressa Moço! não constrói seus discos baseada numa ideia preconcebida e as mudanças de rumo tornam as canções imprevisíveis. Tem espaço para guitarras, melodias melancólicas e samples de crianças falando e jazz. Sobre o clima peculiar, Carlos comenta: “O artista que realmente me inspirou a fazer esse tipo de som foi o DJ Shadow com o disco Entroducing…“.

Saindo de Cena é para aqueles que acreditam que ainda há uma volta para tudo, desde que haja mudanças.

por Edson Codenis e Mário Alencar


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ecolalia – spirits go away (EP)

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Eis aqui o trabalho solo de Reuel Albuquerque, o ecolalia  – em matéria de referências o cara não está para brincadeira, vide as camadas sonoras de seu outro projeto, a banda Jude. Mesmo assim, abracei a proposta e botei o disco pra tocar e nos primeiros 20 segundos já tinha meu veredito: ” Eu gosto disso!”.

Existe um caminho fácil para se fazer musica eletrônica, você pode acrescentar um timbre conhecido sobre uma batida já disponível e pronto, tá feita uma música novinha. Já inserir sua personalidade na música é outra história. O outro caminho, mais tortuoso, foi seguido pelo músico Reuel, que espelha o lendário Brian Eno ou Richard David Jameso mentor por trás do Aphex Twin em seu processo criativo na construção de timbres improváveis que tiram definitivamente suas músicas do lugar comum.

spirits go away é o resultado desta visão sonora, que reúne ecos do industrial de um Nine Inch Nails noventista à incidental de Junkie XL, com suas colagens e tramas. O ecolalia está um passo adiante da ”ambient music”, e abre o álbum com a faixa habitat numa narrativa ascendente que volta e meia interrompida por uma harmonia de piano, a canção não tem beats mas o resultado final é muito interessante.

A segunda faixa body lembra as colagens sonoras do projeto Cabaret Voltaire em sua fase mais experimental, sem compromisso com o pop. Acaba sendo uma extensão da faixa anterior.

fliewitchu também se beneficia de um processo de desconstrução harmônica, chega a ser inquietante, o ecolalia realmente não gosta de temas óbvios, a faixa mereceria um clipe.

9gagme é um dos trabalhos que mais gostei, divertida, etérea e cheia de surpresas. Flerta com o moderno sem abrir mão da criatividade.

body l1ves house leva a sério a verve da música incidental, e você acredita que algo está acontecendo em outro plano, fruto da habilidade de Reuel em criar ótimos temas. Uma versão maior seria bem vinda.

aria: hauges(0)ng (sim, as faixas tem títulos complexos, haha) soa mais intimista, aconselho ouvir com calma e atenção, pois o rapaz sabe guardar seus ases na manga. 

Fechando o trabalho temos inhabit, melodiosa e recheada de vocoders, parece ter saído de um disco do produtor Giorgio Moroder. Em resumo, temos um álbum bem construído e coeso, com faixas que se complementam. Mais uma de nossas tacadas certeiras.

por Edson Codenis


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Mario The Alencar – Great Diary Things (Album)

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Seu histórico como Mario The Alencar (uma de muitas de suas personificações) mostra um trabalho calcado no folk com ”insights guitarrísticos”, tudo num clima lo-fi, termo que é bagunçado, eu admito, onde a gravação caseira faz questão de mostrar que é feita em casa. Seu novo trabalho vai além, muito além – amadurecido como produtor e compositor ele construiu para mim, sua melhor cria.

Influências de Eliott Smith, Pedro The Lion, Daniel Johnston – Mário tem seu jeito de cantar um pouco desafinado/desleixado com um quê de Stephen Malkmus e Sufjan Stevens que são perceptíveis nesse álbum; disse perceptíveis, não copiados. O cara é ”full noventista” nas suas referências na maioria de seus projetos, mas principalmente como Mario The Alencar, assim também como sua banda Killing Surfers. Desde que aprendeu a lidar com programações de bateria sua evolução é gritante, suas guitarras ora levemente distorcidas ora carregadas de chorus, flangers, delays que lembram outros trabalhos seus como o Sketchquiet.

Amigos, o cara criou seu estilo e isso é um diferencial. Com o auxilio de Reuel Albuquerque guitarrista da banda Jude, colocou de forma sensacional metais e sopros sampleados em algumas faixas, a diversidade do disco atingiu um patamar maior ainda, às vezes lembrando o trabalho solo de Neil Halstead, vocalista do Slowdive/Mojave 3 e o já citado Sufjan Stevens. O disco é produzido pelo próprio Alencar, ele gravou as guitarras, contrabaixo, vocais, baterias e as letras são de sua total autoria.

Destaque para as belíssimas faixas BlanketsPale CloudsSummer’s Day e Longing. Em Breakfast Junkie e Feeling So Blue ele brinca de Pavement com um tom debochado/brincalhão. A música Hard Country que leva a um country mais alternativo com guitarras dissonantes também merece esse destaque. 

Uma coisa que observo, esse rapaz também é artista visual e designer gráfico, e o som de seus discos se relacionam com as capas, ora com ilustrações próprias ou com fotos ou montagens. Se a capa é mais sombria seu som será mais ”dark” (haha), se o desenho é mais singelo seu som será mais enxuto e nesse álbum, ele fez uma capa mais colorida, com pequenos detalhes que merecem um olhar mais atento e coincidentemente esse é seu disco mais virtuoso e diversificado até agora. Vai agradar quem curte os referidos artistas – é um som indie (no clichê mesmo), mas é de primeira.

Embarquem nessa viagem deste artista que não tem medo ou vergonha de amadurecer.

por Carlos Otávio Vianna


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Mopho – Brejo (Album)

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Os fãs do Mopho podem falar o que quiser, não importa o que eles digam: que a melhor canção é Tão Longe ou que é Não mande Flores – ou Caixa de Vidro ou Dani Rabiscou… Isso tudo é bobagem e eles sabem disso. O Mopho, cara, é como o vinho que se encorpa e apura o sabor com o decorrer do tempo. Eis a prova disso: as músicas do Brejo, quarto álbum da banda, lançado sete longos anos depois do Vol. 3, soam como clássicas, trazendo a força, a beleza, a naturalidade melódica das composições de João Paulo. A mais querida e mais influente banda de rock da cidade segue firme, com uma sonoridade que não deixa brechas para o vácuo, para a falsidade ou para o tatibitate das bandas adolescentes. O Mopho voa longe, viajando do romance das letras aos solos delirantes de guitarra e teclado.

O vocal de João Paulo amolda-se às canções com uma leveza e segurança – e uma emoção que se não se encaixa como uma luva, responde as expectativas do ouvinte como uma taça de champanhe brindando o ano novo. Ou como um copo de conhaque para abrir a goela e cantar com a verdade de quem não tem receio de expor o próprio desejo e o próprio coração. É uma festa de sentimentos e paixões: uma avalanche, uma correnteza sonora que te leva tão longe, tão perto, aqui, ali – em todo lugar. Se vinho ou cerveja, se conhaque ou uísque, tudo depende do momento: o que rolou acaba virando uma linda canção. A vida do cantor e a de todos nós, não é assim que são compostas as melhores músicas de todos os tempos? Especialmente quando o artista se dispõe a ser honesto no trabalho e a labutar com preciosismo, atendendo as exigências dele mesmo, de alguém que construiu um legado e continua a dar as cartas, reconhecendo-se como legenda criadora de um capítulo fundamental do rock alagoano e do rock brasileiro.

João Paulo canta, afinal, desvinculado do rótulo de banda psicodélica ou retrô. O psicodelismo continua, sem dúvida, com arranjos, por assim dizer, circulares: a roda gigante, o carrossel de fantasias que faz de novo acreditar no sonho, no amor e nas canções – no poder da música. A alma de João Paulo é muito velha, bicho. E ele tem consciência disso, pulando de uma canção à outra como um Merlin alquimista transformando pedra em ouro. As andanças musicais do cantor compositor guitarrista passeiam pela Jovem Guarda e Beatles, pelo Pink Floyd e pelos seminais Rita Lee & Tutti Frutti. E pela Casa das Máquinas, sempre. Não conhece essas bandas? Ah, claro que você conhece o caldeirão de rock que formou o Mopho e que continua alimentando a inspiração in natura de João Paulo.

Abra o seu coração, parece dizer o poeta, busque o seu amor – cante-o se você o perdeu. ”Estou no limiar do meu desterro/ Do meu desapego/ Ancorado em mares medonhos/ Lar de agonia velada/ De fúria alucinada/ Morada da minha loucura” – ele canta em Limiar, já no ranking de “a melhor de todos os tempos”.

Há outras na lista das dez melhores canções de rock. ”Um punhal de prata/ Cravado no peito/ Não derramem lágrimas/ Joguem meu corpo aos porcos/ Eu nunca existi, derrama-se o bardo em Fandango (Joguem meu Corpo aos Porcos). E em Não Sou de Ninguém, ele avisa: ”Ouça essa canção/ Que te fiz amor vazio/ Tu não sabes o quanto custa/ Gostar assim”.

E aí você chora e se lembra do passado, retorna às merdas que fez e às que fizeram com você. E vislumbra o ser poderoso que é, de repente na rua na chuva gritando a todo pulmões: ”Faça chorar/ Deixe sangrar/ Não tenha medo/ Não hesite/ Não há fim – Deus Está Nu, abrindo essa obra-prima chamado Brejo.

Há muito que o Mopho é um fenômeno. Desde que surgiu em 1996, a banda foi sedimentando um terreno de canções acachapantes, do tipo que grudam no ouvido e se tornam inesquecíveis, reverberando pela alma e pelo corpo: da mente alucinada ao coração apertado e vice versa. Músicas que se tornaram parte da nossa história pessoal.
Atualmente formado por João Paulo mais Dinho Zampier – tecladista e também produtor musical, junto com João, do disco Brejo –, e Leonardo Luiz, o sensível contrabaixista que, entre idas e vindas, acompanha essa trajetória desde 1998, para o álbum o grupo contou com a bateria de Rodrigo Peixe. A fotografia promocional da banda foi feita por Fernando Coelho.

E é isso aí. Deus salve o rock alagoano e uma vida longeva para esse monstro sagrado: o Mopho.

por Sebage Jorge


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Juna – Marina Goes To Moon (EP)

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Inspirador. Foi a palavra que me veio na primeira audição de Marina Goes to Moon, EP do duo gaúcho, Juna, que acaba de sair pela Crooked Tree Records. As cinco músicas, gravadas no verão deste ano em São Leopoldo, RS, são bem produzidas e encadeadas de uma maneira agradável, provocando (talvez de forma intencional) essa sensação de imersão, onde a cada faixa um aspecto novo é colocado, em doses homeopáticas, para o ouvinte.

A banda é formada por Victória Appollo (guitarra, violões, teclados e vocais) e Thomas Almeida (bateria, guitarra, contra-baixo e vocais). Para a gravação houve ainda as participações de Daniel Rosemberg e Clandio De Bem.

Prologue, a primeira música do EP, dá o tom do que virá. Música cativante e acompanhada do belo jogo de vozes cheias de personalidade feito por Victória Appollo e Thomas Almeida.

Marina Goes to Moon, faixa título, traz um belo refrão capaz de grudar na sua mente durante o dia inteiro (acredite rs). Há um quê de pop rock, mas delicioso de se ouvir no refrão “I don’t want to be be be be be yours anymore”. O solo de guitarra demonstra a capacidade da banda em unir arranjos de fácil degustação, com técnica elaborada.

Em Aniram é possível perceber o cuidadoso trabalho de mixagem, que produziu uma atmosfera sonora única. Digno de nota são as camadas de guitarras cheias de delay, as quais ressoam de um lado a outro em excelentes divisões que preenchem os espaços na medida certa, sem soar exagerado ou fora de propósito.

Drop the Satellites dá continuidade e liga ao EP e surpreende com outra faceta da banda. Nesta faixa a dupla investe em uma canção com pegada mais pesada, no entanto, sem perder a característica psicodélica das guitarras. A mudança de andamento (e clima) na metade final da música é outra boa sacada.

O EP fecha com a faixa Reprise/Two times, a qual remete, nos minutos iniciais, a uma versão mais lenta de prologue e termina com uma balada lo-fi voz e violão.

É possível observar muitas influências que delineiam o som da Juna que vão desde o space rock, new wave e progressivo até o post-punk. De maneira geral o EP é muito bem produzido, tem conceito bem amarrado e desperta curiosidade sobre o que mais vem por aí.

A capa, de Maria Bitencourt, possivelmente inspirada num dos primeiros filmes da história, o La Voyage Dans La Lune é outro ponto forte. Tanto no filme, quanto no EP há um aspecto de busca e de descobrimento que transcende à época em que foram concebidos. Outra banda que bebeu desta mesma fonte foi o Smashing Punpkins em Tonight, Tonight, que é um clássico para dizer o mínimo. Não sei dizer se Marina Goes to Moon será um clássico tal qual as referências que usou, mas com certeza já nasce grande e bem promissor. No mínimo a arte consegue imprimir não apenas o conceito do disco em si, como também o da banda como um todo.

O ouvinte receberá um singelo convite para além do mundo da lua, mas sim para o mundo de Juna. Boa viagem!

por Leonardo Oliveira


Ouçam agora na íntegra: