Pacamã – Antes Aqui Era Tudo Mato (Album)

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Num mundo onde as pessoas gostam de referendar tudo, é bom descobrir uma novidade que lembra alguma coisa mas que você não consegue definir. Sim, é muito bom descobrir algo original que tem seu jeito de ser – A banda alagoana Pacamã consegue esse feito, a começar pelo título de seu primeiro disco, Antes Aqui Era Tudo Mato.

Não é um disco bicho grilo mas possui um clima sereno, que lembra alguém que contempla uma bela paisagem longe das cidades. Com belas passagens acústicas, alguns efeitos sonoros que percorrem nossos ouvidos de um lado para o outro, guitarras esparsas e precisas que aparecem no momento certo, assim como os arranjos de cordas.

A faixa de abertura Engenho surge com um violão, sob um dueto de voz masculina e feminina que desaba em cordas e as já citadas intervenções de guitarras, a letra tem um jeito MPB”, uma forma mais lírica de falar de amores, natureza e sentimentos. Catedral, é aqui, o destaque do disco, é moderna como bandas gringas da atualidade, War On Drugs, Fossil Collective, Fleet Foxes e tanto faz, seu refrão é acentuado e gruda na cabeça. A percussiva Furdunço, tem guitarras dissonantes e distorcidas, com órgão ao fundo que remete a alguma produção da época do manguebeat, mas não necessariamente… Eddie?! Pontes e Arrois é um interlúdio soando como se estivéssemos passando por um campo lentamente a cavalo. A faixa que leva ao título do álbum lembra a onda pós rock, com seu contrabaixo forte e guitarras viajantes. Itapuã (Mudo) parece um alguém descontraído e feliz brincando com o seu ukulele na beira do rio. Fugitivo nos fazem pensar em uma noite estrelada onde dedilhamos nossa viola. E para finalizar, a derradeira Iara/Rito prova que uma música com arranjo de cordas pode ser pesada e delicada ao mesmo tempo – a letra fala sobre Iara, a mãe d’água.

O clima geral do disco me lembra o trabalho de Lula Cortes e Zé Ramalho, Paêbirú, com apresentação de um mundo fora de nossa realidade das cidades, algo que transcende o materialismo. O álbum mostra um som com pitadas de muitas coisas diferentes, mas que soa próprio nas mãos da banda, que é formada por Mateus Borges nos vocais, Igor Cavalcante na guitarra e violão, Mateus Magalhães com a percussão e vocal, Thiago Mata na bateria, violão, guitarra, contrabaixo, ukulele e vocal e Thomas Schaeffer também com um contrabaixo e guitarra, além da banda, houve participações de Ivana Fontes nos backing vocals, Tércio Smith nos violinos e violoncelos e Ceceu, teclados na faixa Engenho – a arte minimalista e que ao mesmo tempo nos remete a desenhos primitivos é de Thiago Mata.

Uma música moderna, delicada e vibrante nos momentos certos – Pacamã é um peixe da bacia do São Francisco mas que se adapta a vida em aquários e é exportado para todo mundo. Que a música do Pacamã alcance todos os aquários com fone de ouvido e alto-falantes do mundo, com as bençãos de Iara.

por Carlos Otávio Vianna e Mário Alencar


Ouçam agora na íntegra:

 

Bad Rec Project – Every Union Should Be A Lovely Union (Album)

 

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Vamos dar boas vindas ao artista Jorg/Caíque ou como vocês preferirem chamá-lo carinhosamente, lançando o seu mais novo disco com título envolventemente delicioso (haha), Every Union Should Be A Lovely Union.

Bad Rec Project não é um de seus primeiros projetos, conheço Caíque desde a época das bandas Nicotine, Dad Fucked And Mad Skunks, Jorg and The Cowboy Killers e sim, o rapaz não se cansa nunca! Ultimamente, Caíque toca guitarra na Ximbra e também é frontman da Baztian, duas bandas que são importantíssimas para o selo Crooked e cá está ele agora como o Bad Rec Project.

O álbum contém 9 faixas mas apenas com 20 minutos de duração mas olha, eu repeti o disco mais de trilhões de vezes, singelo e adorável (como adoro esse duo de palavras, hehe) – guitarras distorcidas como serra elétricas low-fis (???), vocais rasgados ou em corais, efeitos de reverse em algum instrumento, rola até espremedor de laranja, lixa de parede, desodorante, um cão fofo latindo e aquele som que parece um besouro voando, o xilofone, muito lo-fi, não?!

Percebe-se bem o que o Caíque curte ouvir durante o seu dia-a-dia para compor a Bad Rec Project, acho que vai de Guided By Voices à Pedro The Lion e com certeza muito mais. O ”projeto mal gravado” de Caíque nasceu em 2009 com o EP Leftovers e assim depois lançando dois álbuns, e Every Union Should Be A Lovely Union é o terceiro que a Crooked agarra. O belo desenho frenético da capa de Every Union foi feito pelo próprio, que me fez recordar os desenhos do gênio doentinho Daniel Johnston, em que a música também não se escapa dessa (hehe).

Bad Rec é música para jovens adultos que querem apenas se divertir com os amigos e realizar sonhos juntos mas espera aí, também podemos contemplar o fim de algum relacionamento ou passar a tarde olhando um álbum de família e observar/pensar o quanto você envelheceu mas não perdeu a alma de garotão.

O lo-fi é um termo bastante amado aqui na Crooked Tree, iremos lutar contra o preconceito que ronda isso até agora (hahaha) – a ”música de quarto” reina em nossos berços e não iremos te rejeitar, sem nojinho. Um beijo no pescoço e boa audição.

por Mário Alencar


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Depressa Moço! – Saindo de Cena (Album)

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Carlos Otávio Vianna, a mente carioca por trás do projeto Depressa Moço!, é um artista singular. Tem a capacidade sem precedentes de reunir tendencias das mais variadas e manter um trabalho coeso e criativo. A sua visão orgânica da manipulação de timbres eletrônicos eleva seus trabalhos a um outro nível de construção, onde o clima ”noir” reina.

O próprio Carlos diz ser influenciado por artistas experimentais, agregando beats eletrônicos clássicos como o drum’n bass. Nessa profusão de elementos, surgem vozes recitando versos e samples improváveis, dando um caráter surreal as composições.

Saindo de Cena já é o terceiro álbum do artista no selo, Depressa Moço! foram um dos primeiros a aparecer no catálogo da Crooked, quase um clássico e muito querido pela galera da ”árvore torta” (haha), também é um dos idealizadores do selo da sede do Rio de Janeiro.

O álbum cheio funciona muito bem como música incidental, faixas como O Método são uma crônica urbana narrada – é uma visão sombria característica da eletrônica, compartilhada por bandas pop como o Depeche Mode, New Order, Kraftwerk e até a leva do trip-hop dos anos 90. Também não podemos esquecer de que Carlos adora deixar seu set misturado, Depressa Moço! não vive só de sintetizadores mas também adora um folk, a bela Sonic Fruits é uma delas.

O álbum tem três participações, na faixa Entortando está o nosso artista de São Paulo Eric Iozzi, empunhando teclados e contrabaixo, a faixa Lembrança já é daqui de nossa terra, Sketchquietcomo sempre fazendo os riffs de guitarras e por fim, também de nosso território e assumindo as cinco cordas, Claúdio Teófilo, em Eita Loucura, Vou Na Fé! 

O Depressa Moço! não constrói seus discos baseada numa ideia preconcebida e as mudanças de rumo tornam as canções imprevisíveis. Tem espaço para guitarras, melodias melancólicas e samples de crianças falando e jazz. Sobre o clima peculiar, Carlos comenta: “O artista que realmente me inspirou a fazer esse tipo de som foi o DJ Shadow com o disco Entroducing…“.

Saindo de Cena é para aqueles que acreditam que ainda há uma volta para tudo, desde que haja mudanças.

por Edson Codenis e Mário Alencar


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Mario The Alencar – Great Diary Things (Album)

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Seu histórico como Mario The Alencar (uma de muitas de suas personificações) mostra um trabalho calcado no folk com ”insights guitarrísticos”, tudo num clima lo-fi, termo que é bagunçado, eu admito, onde a gravação caseira faz questão de mostrar que é feita em casa. Seu novo trabalho vai além, muito além – amadurecido como produtor e compositor ele construiu para mim, sua melhor cria.

Influências de Eliott Smith, Pedro The Lion, Daniel Johnston – Mário tem seu jeito de cantar um pouco desafinado/desleixado com um quê de Stephen Malkmus e Sufjan Stevens que são perceptíveis nesse álbum; disse perceptíveis, não copiados. O cara é ”full noventista” nas suas referências na maioria de seus projetos, mas principalmente como Mario The Alencar, assim também como sua banda Killing Surfers. Desde que aprendeu a lidar com programações de bateria sua evolução é gritante, suas guitarras ora levemente distorcidas ora carregadas de chorus, flangers, delays que lembram outros trabalhos seus como o Sketchquiet.

Amigos, o cara criou seu estilo e isso é um diferencial. Com o auxilio de Reuel Albuquerque guitarrista da banda Jude, colocou de forma sensacional metais e sopros sampleados em algumas faixas, a diversidade do disco atingiu um patamar maior ainda, às vezes lembrando o trabalho solo de Neil Halstead, vocalista do Slowdive/Mojave 3 e o já citado Sufjan Stevens. O disco é produzido pelo próprio Alencar, ele gravou as guitarras, contrabaixo, vocais, baterias e as letras são de sua total autoria.

Destaque para as belíssimas faixas BlanketsPale CloudsSummer’s Day e Longing. Em Breakfast Junkie e Feeling So Blue ele brinca de Pavement com um tom debochado/brincalhão. A música Hard Country que leva a um country mais alternativo com guitarras dissonantes também merece esse destaque. 

Uma coisa que observo, esse rapaz também é artista visual e designer gráfico, e o som de seus discos se relacionam com as capas, ora com ilustrações próprias ou com fotos ou montagens. Se a capa é mais sombria seu som será mais ”dark” (haha), se o desenho é mais singelo seu som será mais enxuto e nesse álbum, ele fez uma capa mais colorida, com pequenos detalhes que merecem um olhar mais atento e coincidentemente esse é seu disco mais virtuoso e diversificado até agora. Vai agradar quem curte os referidos artistas – é um som indie (no clichê mesmo), mas é de primeira.

Embarquem nessa viagem deste artista que não tem medo ou vergonha de amadurecer.

por Carlos Otávio Vianna


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Pedro Salvador – Pedro Salvador (Album)

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Eu conheci Pedro no Festival Maionese (AL) de 2012. De lá pra cá sempre soube que ele era um cara muito ativo na produção autoral de sua cidade. Integrando o trio Necro, agora o papo é diferente. Lançando seu primeiro solo, ele aposta numa estética que conversa com a esfera de sua banda principal. Abriu um portal e foi diretamente há 1973, e lá ele gravou todos os instrumentos debutando seu disco homônimo aqui na Crooked.

Pedro Salvador é um dos maiores músicos que a sua cidade tem, é multi-instrumentista e já participou de vários projetos na cena alagoana. O álbum que o jovem veterano está apresentando aqui hoje, foi inteiramente gravado por ele, sem precisar de apoio nenhum (haha).  Com nome homônimo possuem 15 belas faixas, algumas sendo como fragmentos, é o caso das 4 partes de Suíte Microscópica.

O primeiro registro está um misto de sons setentistas, como todos sabem, já há um tempo em que Pedro é levado por essa safra – a faixa Canção do Fim, que tem 9:49 é uma inspiração ao soul funk, tipo Funkadelic mesmo, mas tu pega um flashback do Tim Maia e depois Mutantes com aqueles vocais estilo Rita Lee e Arnaldo Baptista (haha), e isso é bom pra caral****. Temos a Canção da Lua, em que Pedro se apresentou no 1o Festival de Música Popular em Cantos de Alagoas em 2016 (tem no Youtube) que podemos até considerar um hit para o álbum – e finalizando esse ”chama ouvinte porque o troço é bão” (hahahaha), tem até um ”rocksteadyzinho” instrumental, a Bananeiras em Flor.

A produção também é assinada pelo mesmo em parceria com o Estúdio Concha Acústica, e a arte (linda) do disco foi assinada pela artista Julia Danese. Se você é daqueles como eu, que ama Mahavinishu Orquestra, Os Mutantes, O Terço, entre outros nomes proghead nessa vida, não hesite e dê o play sem culpa.

Nem só de Necro vive Pedro!

por Vinícius Dias e Mário Alencar


Ouçam agora na íntegra:

Mopho – Brejo (Album)

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Os fãs do Mopho podem falar o que quiser, não importa o que eles digam: que a melhor canção é Tão Longe ou que é Não mande Flores – ou Caixa de Vidro ou Dani Rabiscou… Isso tudo é bobagem e eles sabem disso. O Mopho, cara, é como o vinho que se encorpa e apura o sabor com o decorrer do tempo. Eis a prova disso: as músicas do Brejo, quarto álbum da banda, lançado sete longos anos depois do Vol. 3, soam como clássicas, trazendo a força, a beleza, a naturalidade melódica das composições de João Paulo. A mais querida e mais influente banda de rock da cidade segue firme, com uma sonoridade que não deixa brechas para o vácuo, para a falsidade ou para o tatibitate das bandas adolescentes. O Mopho voa longe, viajando do romance das letras aos solos delirantes de guitarra e teclado.

O vocal de João Paulo amolda-se às canções com uma leveza e segurança – e uma emoção que se não se encaixa como uma luva, responde as expectativas do ouvinte como uma taça de champanhe brindando o ano novo. Ou como um copo de conhaque para abrir a goela e cantar com a verdade de quem não tem receio de expor o próprio desejo e o próprio coração. É uma festa de sentimentos e paixões: uma avalanche, uma correnteza sonora que te leva tão longe, tão perto, aqui, ali – em todo lugar. Se vinho ou cerveja, se conhaque ou uísque, tudo depende do momento: o que rolou acaba virando uma linda canção. A vida do cantor e a de todos nós, não é assim que são compostas as melhores músicas de todos os tempos? Especialmente quando o artista se dispõe a ser honesto no trabalho e a labutar com preciosismo, atendendo as exigências dele mesmo, de alguém que construiu um legado e continua a dar as cartas, reconhecendo-se como legenda criadora de um capítulo fundamental do rock alagoano e do rock brasileiro.

João Paulo canta, afinal, desvinculado do rótulo de banda psicodélica ou retrô. O psicodelismo continua, sem dúvida, com arranjos, por assim dizer, circulares: a roda gigante, o carrossel de fantasias que faz de novo acreditar no sonho, no amor e nas canções – no poder da música. A alma de João Paulo é muito velha, bicho. E ele tem consciência disso, pulando de uma canção à outra como um Merlin alquimista transformando pedra em ouro. As andanças musicais do cantor compositor guitarrista passeiam pela Jovem Guarda e Beatles, pelo Pink Floyd e pelos seminais Rita Lee & Tutti Frutti. E pela Casa das Máquinas, sempre. Não conhece essas bandas? Ah, claro que você conhece o caldeirão de rock que formou o Mopho e que continua alimentando a inspiração in natura de João Paulo.

Abra o seu coração, parece dizer o poeta, busque o seu amor – cante-o se você o perdeu. ”Estou no limiar do meu desterro/ Do meu desapego/ Ancorado em mares medonhos/ Lar de agonia velada/ De fúria alucinada/ Morada da minha loucura” – ele canta em Limiar, já no ranking de “a melhor de todos os tempos”.

Há outras na lista das dez melhores canções de rock. ”Um punhal de prata/ Cravado no peito/ Não derramem lágrimas/ Joguem meu corpo aos porcos/ Eu nunca existi, derrama-se o bardo em Fandango (Joguem meu Corpo aos Porcos). E em Não Sou de Ninguém, ele avisa: ”Ouça essa canção/ Que te fiz amor vazio/ Tu não sabes o quanto custa/ Gostar assim”.

E aí você chora e se lembra do passado, retorna às merdas que fez e às que fizeram com você. E vislumbra o ser poderoso que é, de repente na rua na chuva gritando a todo pulmões: ”Faça chorar/ Deixe sangrar/ Não tenha medo/ Não hesite/ Não há fim – Deus Está Nu, abrindo essa obra-prima chamado Brejo.

Há muito que o Mopho é um fenômeno. Desde que surgiu em 1996, a banda foi sedimentando um terreno de canções acachapantes, do tipo que grudam no ouvido e se tornam inesquecíveis, reverberando pela alma e pelo corpo: da mente alucinada ao coração apertado e vice versa. Músicas que se tornaram parte da nossa história pessoal.
Atualmente formado por João Paulo mais Dinho Zampier – tecladista e também produtor musical, junto com João, do disco Brejo –, e Leonardo Luiz, o sensível contrabaixista que, entre idas e vindas, acompanha essa trajetória desde 1998, para o álbum o grupo contou com a bateria de Rodrigo Peixe. A fotografia promocional da banda foi feita por Fernando Coelho.

E é isso aí. Deus salve o rock alagoano e uma vida longeva para esse monstro sagrado: o Mopho.

por Sebage Jorge


Ouçam agora na íntegra:

The Crooked Friends Collective – Vol. 1 (Coletânea 1 ano de Crooked Tree Records)

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O tempo anda sem percebermos quando estamos em atividade, não? Melhor ainda quando fazemos algo com a própria alma.

No final de 2015, logo no natal, fui tendo uma ideia de poder ajudar um pessoal que eu observava de longe, bem distante; mas essa galera não era apenas uma galera comum, eram artistas, que andavam em seus próprios quartos, porões e até mesmo estúdios para criarem, criarem música. Essas pessoas vivem trancafiadas dias após dias para construírem algo que vem delas mesmas, com muito amor e carinho. Mas essas pessoas estavam acanhadas de mostrarem isso a uma rede social, ao mundo que os tem ao redor, foi daí que a Crooked Tree Records nasceu, junto com uns amigos que conheci a pouco tempo, e que tinham os mesmos caminhos.

Agora, o selo completa 1 ano de aniversário – com 23 discos no catálogo e 19 artistas. Esses talentos estão divididos pelo mundo: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Alagoas, Goiânia e até mesmo a Espanha. Tivemos altos e baixos por aqui, mas sempre com o orgulho de fazer parte desta equipe que vem lutando pelo seu espaço, tendo ideias e mais ideias sem cessar.

Uma salva de palmas para todos que estão envolvidos a Crooked Tree, sem o apoio de vocês este sonho não se tornaria tão real – grande honra está ao lado de grandes artistas e bandas, aprendendo a cada dia uma imensidão diferente. Vocês são incríveis!

Mas parando com toda essa choramingueira! (haha) Temos aqui de presente para nossos ouvintes fies (rsrs) – uma coletânea com quase todos os artistas do selo, os que marcaram mais no ano passado e até então em janeiro. Um punhado de canções inéditas que foram gravadas justamente para isso, e outras que já foram lançadas em outras plataformas. Fiquem com os projeto solos do Depressa Moço!, Mario The Alencar, Nonsense Lyrics, Sebage, Wands (projeto solo do vocalista da banda Pormenores), Hesla (nova empreitada do artista Diaz, que em breve estará lançando disco por aqui) – também com os experimentalismos do Sketchquiet, Eric Iozzi, Botas Batidas, Lzu, dpsmkr – e as bandas Killing Surfers, Humbra, Fantasmas de Marte e The Modem. Mas antes de tudo! Vamos tirar mais um pouco a preguiça para lermos mais um pouco alguns depoimentos de alguns artistas, Leonardo Oliveira da Humbra, Carlos Otávio Vianna, Depressa Moço! e ah! Os videozinhos da bandas Jude Edson Codenis da The Modem, agradecendo-nos e dando os parabéns – ”rock n’rooooll hey! rock n’rooooool rock! rock n’rooool hey!”.

por Mário Alencar


Carlos Otávio Vianna (Depressa Moço!):

O ano de 2016 não foi fácil!!! O mundo e não só nosso país sofreram com crises econômicas e políticas. Muita coisa está mudando, o mundo toma conhecimento de diferentes
culturas, hábitos até então relegados a uma posição submissa. A diversidade é enorme, temos muita coisa diferente ao nosso alcance, ainda mais com as ferramentas tecnológicas que temos hoje em dia. Mas por mais estranho que pareça boa parte das pessoas não está
arriscando no novo, no diferente….o medo do novo sempre existiu, mas talvez preguiça…já que temos tanto a mão. Não queremos perder tempo!!!! Perdemos tanto tempo pensando nisso…

Em fevereiro de 2016 surgiu em Maceió, Alagoas, o selo Crooked Tree Records, projeto da cebeça do inquieto Mário Alencar. O selo queria divulgar artistas independentes de qualquer lugar do país, e abria um leque enorme de opções sonoras. Não importando se era gravação caseira ou profissional, se valia a  pena era lançado. ser era uma banda ou um homem banda (atenção meninas, esta faltando mulher- banda ou banda de meninas no pedaço!).

Rock em português da Pormenores, Fantasmas de Marte, Jude, Humbra, Primavera. Pop eletrônico do The Modem, MASM, também musica minimalista experimental de DPSMKR, Sketchquiet, Gimu, Botas Batidas . Musica passional de Nonsense Lyrics e Mario the Alencar. Paisagens sonoras criadas por Eric Iozzi e LZU, sons eletrônicos e acústicos de Depressa moço!, DIAZ e o shoegaze da Killing Surfers. Uma diversidade que fez bem a todos, onde se criaram novas amizades e união em torno da música. Essa crença na diversidade acho que favoreceu a vários artistas do selo estarem presentes em listas de melhores do ano, as vezes mais de um artista numa mesma lista e junto com ˜medalhões” da industria
fonográfica e artistas com mais exposição na grande mídia. Fiquei feliz em fazer parte desse combo.

Agora, para celebrar um ano de existência, a Crooked Tree Records vai lançar uma coletânea de seus artistas. Ela representa bem o que falei anteriormente, um caleidoscópio sonoro (se isso é possível, he he) onde cada artista contribuiu com uma musica, na maioria inédita em seus trabalhos. Ouça, arrisque…se você não gostar,  tudo bem, saberá que existe muita coisa diferente para conhecer. O mundo precisa disso!!!


Leonardo Oliveira (Humbra):

O ano de 2016 começava para nós de forma despretensiosa. Estávamos montando novo repertório e decidindo qual direção daríamos à banda. Foi aí que tivemos a ideia de gravar um conjunto de 5 músicas de diferentes fases de nossas vidas, o Tempos Mal Vividos.

E foi assim, experimentando o passado,  testando antigos arranjos há muito empoeirados nos meandros de nossas mentes, que este disquinho despretensioso rendeu para nós da Humbra a oportunidade de entrar pra Crooked Tree Records e ampliar sobremaneira as possibilidades da  banda como um todo. O que mais nos chamou atenção na Crooked foi a diversidade e a capacidade de reunir de forma uníssona tanta gente diferente; uma verdadeira lente num mar de informação que nos fornece um belo recorte da cena que se forma no país.


Edson Codenis (The Modem):


Reuel Albuquerque e Alexander Campos (Jude):


Ouçam agora na íntegra:

Jude – Ainda Que de Ouro e Metais (Album)

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Você sabe que existe um clássico lançado por uma banda de rock quando bate o ouvido e você vê que houve um sentimento sincero e um trabalho apaixonado por trás de cada onda sonora das faixas que nosso ouvido é capaz de absorver; é quando você percebe que não se trata de apenas música, como se algo estivesse para acontecer em uníssono no momento em que as pessoas derem uma chance.

Este é o caso da Jude, que chega com seu álbum de estreia com uma qualidade absurda nos arranjos e uma proposta sonora outrora saudosa que é atualizada com uma nova geração de músicos experientes, o que faz a gente sentir saudade de um tempo em que nem éramos nascido. Com uma forte presença de influências de Beatles, Mutantes, Secos e Molhados, Ave Sangria, Som Nosso de Cada Dia, Clube da Esquina, Sá, Rodrix & Guarabyra, a banda, formada por Reuel Albuquerque (Morfina), Fernando Brasileiro e Alexander Campos (Ex-Necro), é recheada de tons psicodélicos e cordas notoriamente bem timbradas que se casam perfeitamente com uma melodia vocal doce – constituindo refrões memoráveis, temos aqui uma coleção de potenciais hits reunidos em uma verdadeira obra-prima do revival em plena Alagoas, um  puro diamante dilapidado e pronto para apreciação. A propósito, a terrinha tem um flerte bem sucedido com grupos musicais que se deleitam no legado de ouro do rock.

Não se sabe se a mística da coisa está na água nordestina (vide a façanha psicodélica dos pernambucanos da Ave Sangria, com seu disco lançado em 1974) ou se o fenômeno sonoro bateu forte aqui pra uma porção de jovens que nasceu bem depois da época em que tais sonoridades eclodiram; o curioso é que o revival na terra dos marechais passou a ter notoriedade nacional com a evidência alcançada pela Mopho, por seu primeiro disco nos anos 2000, onde se vê uma mistura do pop ”beatlemaníaco” com elementos de rock progressivo, com direito a elogios do ex-mutante Arnaldo Baptista, o quilate de ser considerado um dos melhores discos da década e o alcance nas paradas de rádio norte-americana. Tempos depois, em 2009, surge a Necro, capitaneada por uma nova geração de jovens que, conduzindo competentemente o bastão, atualizam o resgate de gêneros sonoros setentistas para uma nova leva de público ao passo que reconquista a memória dos mais ”old-school” com seu som mais sombrio e ”sabático”, fazendo turnê e encantando a cada apresentação ao vivo – entre as bandas nacionais. Mas se o descobrimento dessa fonte de artistas apaixonados vem com tais bandas que automaticamente se tornam referências para todo alagoano roqueiro de gosto refinado, a consolidação de Alagoas como berço da boa música da escola velha vem mesmo com as novidades que passam a existir, e nesse caso a Jude é a bola da vez.

A banda, que lançou timidamente seus dois singles Ainda que de Ouro e Metais e Vá Ser Feliz Como o Arnaldo Baptista no finalzinho do primeiro semestre andou trabalhando nos últimos meses no disco completo, que acaba de ser lançado de forma independente e com o apoio da gente aqui da Crooked. Cada música do disco homônimo possui canções diferentes que, entretanto, não saem da pretensão de manter raízes calcadas nas suas referências, sempre apontando para os idos da década de 60 e 70.

Produzido pela própria banda e turbinado com participações especiais de representantes dessa leva de artistas como João Paulo da Mopho, e Pedro Ivo da Necro, é de longe um dos discos – senão o disco do ano mesmo neste finalzinho de 2016! Seguindo com a bela arte de colagem para capa feita pelo nosso artista, Elizeu Salazar (a.k.a Lzu).

Recomendamos a audição repetida e sem limites da obra na íntegra! Todo sucesso e devido reconhecimento à Jude!

por Nô Gomes.


Ouçam agora na íntegra:

Botas Batidas – Não Adentre A Meia Noite Apenas Com Ternura (Album)

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Muitas vezes precisamos falar pouco para dizermos muito, e assim, adentremos a meia-noite mas não apenas com ternura. Adentremos em pontos reflexivos – plausível com a textura vinda de Botas Batidas, na solidão de uma rua escura, um verdadeiro pós-álcool com vida em um pouco de morte.

Quem é esse tal Botas?! Mateus de França é o responsável por esse pseudônimo, e o cearense entra hoje para o coletivo da Crooked, com o seu terceiro e mais novo álbum, que particularmente seria o melhor dos outros que Mateus já gravou; segundo nós.

Dando portas infinitas para este bossa-nova experimental (como?!) sim, quando o ouvimos, lembramos das belas cordas daquela época, mistura aí as melodias de Cartola com a loucura do harsh noise do Merzbow (que doidera da po$#@%& é essa!?!?!) sim, ouça! e entenderás se estás neste caminho. Antes de tudo, prestem atenção na faixa Agenor de Oliveira, e perceberás com clareza que o garoto tem um pouco da referência de um dos compositores que mais lutou pela sua carreira; quase uma apologia.

Algumas músicas te dão ideologias, arrepios,  euforias… e algumas te dão, você – como se pudesse ver um espelho em cada toque e em cada som, violões psicodélicos e mensagens sendo enviadas através de ondas sonoras a alegrias de quem já viveu e continua vivo.

Em todas as faixas pode se ouvir o silêncio de um grito que suplica ao dizer: Não adentre a meia noite apenas com ternura.

por Gellyvan Fernandes


Ouçam agora na íntegra:

Eric Iozzi – Voyage (Album)

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Tão próximo de seu primeiro trabalho quanto a lua da terra – a lua exerce sua função sobre a terra. Se algo saiu do Casca, o seu álbum anterior foi o Voyage, não, não desse modo, e sim como uma joia espontânea e sem cicatrizes de sua formação ou de algo que venha antes dela; nua e crua.

Eric Iozzi se modela como água entra as rochas – do que eu estou falando? Estou falando de um excelente disco que vocês vão ouvir. Eu não sei como, não sei o porque, mas ele é o que é. Este é aquele tipo de material que se fosse lançado em 1976 seria um clássico, e se você mostrar hoje ao seu amigo mais próximo, ele não acreditará que é deste século.

Horas que é nostálgico, horas que é desesperador; o disco tem fases aleatórias e que o irá levar a um estado de transe, mas que há uma poesia no meio disso tudo – um belo sentido.

Místico como Kate Bush, realista como Syd Barrett e depressivo como Nick Drake; entre as paredes de concretos e os aços da cidade, vaga um rapaz chamado Eric Iozzi – que criou, produziu e gerou Voyage.

Ouçam e embarquem neste balão mágico onde você terá que tomar muito ácido para chegar ao destino.

por: Gellyvan Fernandes


Ouçam agora na íntegra: