Humbra – 1/4 Para As Horas (EP)

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foto por Humbra

O que era a Humbra em Tempos Mal Vividos?! Em 1/4 Para as Horas, eles constroem o seu próprio Jar of Flies (haha), acústico e com muita pegada de slides. Acendam todas as velas que puderem de suas casas e entrem no clima de ”unplugged”.

A Humbra é um quarteto do Rio de Janeiro que já está nas ”roads” desde 2014, entraram para o selo em 2016 com o EP já citado. Sempre a procura de desvendar novos estilos, eles não tem medo de saírem da zona de habitat, digo, para quem os conhece a Humbra segue o som dos anos 90, como Alice In Chains, Tad, Soundgarden, Stone Temple Pilots, mas estão sempre a frente experimentando seus feelings e valores.

O novo EP tem uma certa delicadeza, com nenhuma distorção de fuzz e ruídos no que você ouviu em Tempos Mal Vividos,  1/4 Para As Horas é mais cuidadoso, percebe-se pelas letras e arranjos que estão com uma certa maturidade e um sentimento a flor da pele, os caras fizeram até uma versão de River Of Deceit do Mad Season como uma faixa bônus para o disco. O registro é pequeno, justamente para repetir quantas vezes você quiser, é um trabalho com uma expressão muito viva e merece muitos plays (haha).

Todo esse belo trampo foi produzido pela própria banda, Leonardo Oliveira (guitarra, violão e vocais), Val Waxman (Guitarra e violão), Bruno Monteiro (Bateria) e Fabiano Cunha (Contrabaixo e backing vocal), e não podemos esquecer da participação de Paulo Marinho nas baterias da 4ª faixa Avise-me, que acredito que seja um hit grandioso do disco.  

A arte da capa é de Art Vanderlay, que me fez lembrar as pinturas impressionistas do século XIX, mas bem, isso não vem ao caso (hahaha); tenham uma boa audição com 1/4 Para As Horas, um dos materiais mais bonitos da Humbra.

por Mário Alencar


Ouçam agora na íntegra:

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Teófilo – Mais Perto de Mim (EP)

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foto por Cláudio Teófilo

Quem carrega arte no coração tem o luxo de extravasar suas angustias, seus temores de uma forma lírica que ajuda a deixar a alma leve, por vezes atingindo pessoas que nunca conheceu. Cláudio Teófilo, um talentosíssimo guitarrista de Alagoas, tem um jeito peculiar de tocar e carrega a arte na alma.

Usando uma técnica de tapping própria, ou math pop, emo, como acharem melhor: pensem em pitadas de Stanley Jordan, Michael Hedges com um banho de Vini Reily (o Durutti Column em pessoa) em uma roupagem lo-fi e teremos temos uma idéia do som que ele faz.

O EP Mais Perto de Mim é onde o artista se apresenta sozinho com sua guitarra, é intimista, confessional e belo, com um clima que remete aos primeiros trabalhos do já citado, Durutti Column.

Teófilo declama as letras com sua voz banhada em ecos, nos transportando para seu diário sonoro, onde encontramos desenhos e histórias, em forma de canção. São 6 músicas boas para audição, em um lugar calmo e contemplativo… Para pensar na vida.

A primeira faixa, Escolha se Escolher, mostra belo trabalho com harmônicos e a letra nos convoca a fazer as escolhas certas para a vida. Em O estouro do balão no final da festa que deu errado, é serena e triste, ele abre seu coração sobre guitarras delicadas e tocadas em reverso. Em Forrest Gump temos samples do filme e uma letra que nos impele a continuar a correr atrás dos sonhos, não importa o que aconteça. A faixa seguinte, Fogos de Artifício, na verdade uma pequena peça instrumental, nos vemos no meio de uma festa de São João vendo os fogos. Na quinta faixa 4011 – Salvador Lyra (Via Recantos), é toda no instrumental, estamos olhando pela janela de um ônibus vendo a paisagem e fechando os olhos para escutar nosso coração que pode estar fragilizado, mas ainda bate. Na última faixa Você é uma Estrela (Te vejo no presente mesmo morrendo no passado)  pegamos carona numa nave espacial que decola suavemente rumo as estrelas em um som banhado de phasers, vibratos e delays.

Um disco que me emocionou profundamente. O EP tem a produção de Mário Alencar em seu pequeno estúdio que fica em seu próprio quarto, o Estúdio Lofizêra. A linda capa ilustrada é por Gellyvan Fernandes. Tudo entre grandes amigos!

Espero que esse artista, que esbanja talento e que passou por momentos difíceis, consiga mostrar agora seu imenso talento ao mundo. Boa sorte amigo!

por Carlos Otávio Vianna


Ouçam agora na íntegra:

Victor Barros – Down and Out (EP)

 

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Foto por Taynah

 


Down and Out é o título do EP de Victor Barros, produzido no Estúdio Lofizêra em Alagoas e lançado pela Crooked Tree Records agora em novembro. A arte da capa ficou por conta de Mário Alencar (Killing Surfers, Sketchquiet), que também foi incumbido de desenhar as linhas de baixo. A banda conta ainda com Gibson Soares (guitarras) e Luan Marcel (bateria). Os vocais e violões são de Victor Barros.

Apesar do lançamento ocorrer no fim desta primavera, Down and Out tem toda a cara de Outono, como uma atmosfera de ocaso de um pôr do sol mais cinza que colorido. Podemos ouvir seis músicas semi acústicas em tom melancólico e com letras muito boas, cantadas por um estilo de vocal quase barítono de Victor Barros, lembrando referências como Jim Morrison à Eddie Vedder.

Calling Home abre o disco de forma serena. Uma balada levada no violão e entrecortada por um tema de guitarra, que combinou bem com o estilo (E a maneira de cantar). Destaque para a letra com bons recortes filosóficos como nos versos Reflections on the mirror / It shows a living thing

Stay, a segunda música, com o refrão que diz Stay / you know it can’t be real / Stay / There’s nothing in between / Stay / Reality is not the same é quase um contraponto de sua antecessora. Mais acelerada, mudanças rítmicas interessantes e um vocal mais ácido dão o cartão de visitas da próxima música.

How Could I Know? mantém a pegada com Victor Barros soltando ainda mais o vocal e me evocou em certas passagens, referências como de Neil Young e do próprio Pearl Jam. É a música com mais peso e um refrão que deve funcionar muito bem nas apresentações ao vivo.

Down and Out, canção que dá nome ao trabalho, tem um arranjo bem trabalhado com violões, guitarras e vocais bem expressivos, que de fato, parecem ser a marca deste disco.

A quinta música, Expectations, parece ser para mim a canção mais bonita e poderia facilmente estar em muitos ”top 5” das músicas lançadas por artistas independentes em 2017.  Os bons timbres de violão e guitarra, delineados por uma linha de baixo interessante produzem uma atmosfera elegante, que é um prato cheio para a melodia vocal.

O trabalho encerra com Fire, a mais ”indie” das seis, digamos assim. Victor Barros opta por um vocal mais soturno, que me rememora algo de Paul Banks no verso You had to run away / No one could stay o que é, de minha parte, um elogio sem precedentes (rs).

A banda funcionou bem como um todo em Down and Out e a química parece ter dado certo. Ao explorar essa faceta semi acústica conseguem um certo ar de naturalidade às músicas, porque provavelmente foi no violão que elas devem ter surgido pela primeira vez. Então, muito do caminho da produção pode ter sido facilitado. As letras variando ora mais confessionais, ora mais filosóficas são outro destaque. De modo geral Victor Barros entrega bem o que promete e desponta como uma das vozes mais outonais do rock alternativo no país. Em plena primavera.

por Leonardo Oliveira


Ouçam agora na íntegra: 

Jude – Ainda Que de Ouro e Metais (Album)

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foto pro Jude

Você sabe que existe um clássico lançado por uma banda de rock quando bate o ouvido e você vê que houve um sentimento sincero e um trabalho apaixonado por trás de cada onda sonora das faixas que nosso ouvido é capaz de absorver; é quando você percebe que não se trata de apenas música, como se algo estivesse para acontecer em uníssono no momento em que as pessoas derem uma chance.

Este é o caso da Jude, que chega com seu álbum de estreia com uma qualidade absurda nos arranjos e uma proposta sonora outrora saudosa que é atualizada com uma nova geração de músicos experientes, o que faz a gente sentir saudade de um tempo em que nem éramos nascido. Com uma forte presença de influências de Beatles, Mutantes, Secos e Molhados, Ave Sangria, Som Nosso de Cada Dia, Clube da Esquina, Sá, Rodrix & Guarabyra, a banda, formada por Reuel Albuquerque (Morfina), Fernando Brasileiro e Alexander Campos (Ex-Necro), é recheada de tons psicodélicos e cordas notoriamente bem timbradas que se casam perfeitamente com uma melodia vocal doce – constituindo refrões memoráveis, temos aqui uma coleção de potenciais hits reunidos em uma verdadeira obra-prima do revival em plena Alagoas, um  puro diamante dilapidado e pronto para apreciação. A propósito, a terrinha tem um flerte bem sucedido com grupos musicais que se deleitam no legado de ouro do rock.

Não se sabe se a mística da coisa está na água nordestina (vide a façanha psicodélica dos pernambucanos da Ave Sangria, com seu disco lançado em 1974) ou se o fenômeno sonoro bateu forte aqui pra uma porção de jovens que nasceu bem depois da época em que tais sonoridades eclodiram; o curioso é que o revival na terra dos marechais passou a ter notoriedade nacional com a evidência alcançada pela Mopho, por seu primeiro disco nos anos 2000, onde se vê uma mistura do pop ”beatlemaníaco” com elementos de rock progressivo, com direito a elogios do ex-mutante Arnaldo Baptista, o quilate de ser considerado um dos melhores discos da década e o alcance nas paradas de rádio norte-americana. Tempos depois, em 2009, surge a Necro, capitaneada por uma nova geração de jovens que, conduzindo competentemente o bastão, atualizam o resgate de gêneros sonoros setentistas para uma nova leva de público ao passo que reconquista a memória dos mais ”old-school” com seu som mais sombrio e ”sabático”, fazendo turnê e encantando a cada apresentação ao vivo – entre as bandas nacionais. Mas se o descobrimento dessa fonte de artistas apaixonados vem com tais bandas que automaticamente se tornam referências para todo alagoano roqueiro de gosto refinado, a consolidação de Alagoas como berço da boa música da escola velha vem mesmo com as novidades que passam a existir, e nesse caso a Jude é a bola da vez.

A banda, que lançou timidamente seus dois singles Ainda que de Ouro e Metais e Vá Ser Feliz Como o Arnaldo Baptista no finalzinho do primeiro semestre andou trabalhando nos últimos meses no disco completo, que acaba de ser lançado de forma independente e com o apoio da gente aqui da Crooked. Cada música do disco homônimo possui canções diferentes que, entretanto, não saem da pretensão de manter raízes calcadas nas suas referências, sempre apontando para os idos da década de 60 e 70.

Produzido pela própria banda e turbinado com participações especiais de representantes dessa leva de artistas como João Paulo da Mopho, e Pedro Ivo da Necro, é de longe um dos discos – senão o disco do ano mesmo neste finalzinho de 2016! Seguindo com a bela arte de colagem para capa feita pelo nosso artista, Elizeu Salazar (a.k.a Lzu).

Recomendamos a audição repetida e sem limites da obra na íntegra! Todo sucesso e devido reconhecimento à Jude!

por Nô Gomes.


Ouçam agora na íntegra:

Nonsense Lyrics – Golden Country Punk (EP)

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foto por Mário Alencar

Ele é canhoto, hiperativo, simples, amável, sensível, teimoso e tem um black power bem tratado – enfím, um fofo. Estamos falando do nosso lançamento da semana, o membro mais querido da Crooked, Gellyvan Fernandes – lançando seu pseudônimo, Nonsense Lyrics e seu primeiro trabalho, Golden Country Punk.

Você nunca ouviu falar desse homenzinho por aí (entendam a piada como for, hehe), vai vê porque Gelly nunca fez questão de se exibir para a sociedade, sempre alí – na dele. Ele odeia internet, odeia gente moderna; prefere ouvir bossa nova com amigos íntimos enquanto degusta uma vodka de 2ª.

O disco é um pequeno e virtuoso EP – as violas, contra-baixo, escaleta e guitarras foram executados pelo próprio, da sua maneira drunk – e as letras, sinceras e diretas. Seus vocais são desleixados e nada melódicos, e as canções lembrando horas o folk do Neutral Milk Hotel ou Bob Dylan – tirando a faixa Miopia Astigmatismo (como?!), com aquele groovezinho no baixo e uma guitarrinha esperta levando aquele funk do big Tim Maia.

Mário Alencar (Mario The Alencar; Sketchquiet) colaborou no registro, assumindo guitarra e gaita nas faixas My Own Funeral  e Lost Roads; Mário também produziu o EP.

A fotografia irada da capa é de Felipe Lemos, também chegado da galera e quase um mascote (hehe).

Nota final: Se você pensa que vai ouvir por aqui mais um daqueles ”playbas” do folk de MCZ querendo status para conquistar a mulherada, vai caindo fora! póis Nonsense Lyrics e seu Golden Country Punk é para os que apreciam a boa alma singela.

por Mário Alencar


Ouçam agora na íntegra: