Lonely Me – Twisted Sad Machines (Album)

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foto por Mária Ribeiro Campos

Twisted Sad Machines, da Lonely Me, tem cheiro de saudade e um certo gosto nostálgico. Explico: em tempos cada vez mais acelerados, o ontem passa a ser como há três séculos. Ou seja, até “ontem” o bip era um bem de última tecnologia. Hoje eu nem sei se você lembra, ou sabe o que foi o bip. Não é preciso dizer (porém, é extremamente necessário que você não perca essa perspectiva), mas, a velocidade dos avanços na comunicação e do potencial de divulgação de arte independente na internet é um dos grandes personagens desta história.

O compêndio lo-fi, todo gravado na lendária Toca do Pombo, reúne todos os elementos estéticos destes tempos: boas ideias, excelentes melodias, arranjos bem bolados, produção de baixo custo e muito amor à camisa. Ao ouvir o disco faixa a faixa (como se fazia antigamente), fui submetido à certa crise existencial, compasso a compasso, catapultado aos meus 17 anos e tudo que um dia fui e não sou mais. Para situá-lo melhor no tempo e no espaço, falo da antiguíssima era compreendida entre o fim dos anos de 1990 do século passado e o início dos anos 2000.

E a cena que vos apresento é a famigerada cena Seropedicense. A palavra deriva do nome do pequeno município da baixada fluminense: Seropédica (RJ). Por isso, diz-se seropedicense daquilo ou daquele que provém de Seropédica. Também chamada por nós de SeroTexas, em razão do calor escroto que faz na cidade nas tardes de fevereiro, ou Seropedicity, o que me remete a alguma doença incurável; tipo, poderia se dizer: “Coitado… Morreu de Seropedicity…”.

E lá estava o jovem Val Waxman, autor da obra que agora você tem “em mãos”. Ouvindo a faixa de abertura (Those) Dark Places e lendo com atenção os versos da canção, não me restam dúvidas. A opacidade de tudo que nos cerca é o melhor material de criação que podemos ter. Vendo desta perspectiva, o álbum e as questões por trás de cada música são geniais. Toda a casca ruidosa do disco, a voz soterrada querendo gritar, mas contida, junto da masterização em fita, que torna tudo mais aveludado, rústico e analógico, se contrapõe, por exemplo, à bateria eletrônica, habilmente construída para nos enganar; todos esses elementos só ressaltam ainda mais a origem e a intenção do que se ouve. Junte as peças, monte o quebra-cabeças de Twisted Sad Machines e perceba a beleza e a alegria que é conseguir fazer música de qualidade com tão poucos recursos.

Por isso, acredite se quiser, ou puder: neste lugar no cu do mundo existe um cara que a partir de ”sad machines” produziu um material que está na tangente de tudo o que você já viu. (Apenas um detalhe: para o Rogério Skylab, o cu do mundo deveria ser o lugar mais maneiro do mundo. Se assim o for, Seropédica, o cu do mundo, até que é um lugar legal). Toda essa história, de certa forma, me remete àquele livro do Gladwell Malcom, “Fora de Série”. O livro tenta explicar o que é necessário para um indivíduo vir a ter sucesso em alguma determinada atividade. E a conclusão de que Malcom chega é que, além da experiência mínima de 10 anos (ou 10 mil horas) de prática na atividade pretendida, tal indivíduo ainda necessitaria de, claro, talento, amigos influentes, uma certa quantia de dinheiro e (pasmem) ter nascido na época certa para o desenvolvimento de tal atividade! Ou seja, putaqueopariu! E eu sempre ficava pensando ao ler o livro: meu Deus, quantos lugares escrotos desse Brasil e do mundo não guardam uma cena que eu nunca vou saber da existência? Quantas músicas legais vou deixar de ouvir por falta de recurso, ou pela infelicidade de um excelente compositor ter feito os amigos errados, ou nascido na época errada, ou no lugar errado?

Hoje o mundo está diferente e temos a oportunidade de ouvir e ter acesso a muitos cus do mundo. O fato é que o cu do mundo nunca esteve tão acessível. Mas, voltando ao Twisted Sad Machines e à Lonely Me, Val Waxman deve ter já acumulado em seu currículo umas 20 mil horas de know-how em “barulhismos lo-fiísticos”… Assim, no meu caso, as oito músicas deste projeto soam ainda mais surpreendentes, pois conheço de longa data a mente idealizadora de todo o projeto. Por isso, sou suspeito em tecer qualquer tipo de elogio; conheço bem a capacidade de criação deste camarada. Mas, tenho uma pergunta a fazer: cara, onde você guardou essas músicas esse tempo todo? Eu sei, não responda. No cu do mundo.

por Leonardo Oliveira


Ouçam agora na íntegra:

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